AUTOR

TEMPO DE LEITURA

2.9 min

PUBLICADO EM

05/05/2017

Eu tinha 12 anos. Certo dia minha mãe viu verrugas em meus dedos e pés. Ficou horrorizada. Havia uma crença de que verrugas, se esfoladas, poderiam evoluir para uma doença gravíssima, aquela, cujo nome jamais era pronunciado.

Dias após, a chamado de minha mãe, chegou lá em casa a Maria Palmeira.

Era uma mestiça de bugres e negros, pequenina, talvez um metro e cinquenta, cabelos enrolados e troncuda feito um barril.

A razão de sua notoriedade estava no sobrenome que recebeu, já que seu nome de origem, se teve algum, não era conhecido. Maria Palmeira era assim chamada por ser torcedora fanática do time de futebol local. Segundo a lenda, numa Blumenau dividida, era o time dos brasileiros, ou seja, negros, crioulos e, no caso de Maria, índios. Os adversários eram torcedores do Olímpico, os alemães. Meias verdades, como tudo no mundo do futebol.

O seu sustento saía das verduras e frutas que cultivava e que oferecia numa carroça oscilante puxada por um cavalinho petiço e triste. Tinha enorme freguesia, pela qualidade dos alimentos e pela simpatia.

Pois Maria Palmeira ia a todos os jogos do Palmeiras e ficava – naqueles tempos sem alambrado e policiamento – na linha do campo, aos berros, incentivando os jogadores, xingando os adversários e dizendo coisas terríveis a respeito da mãe do juiz. Com um detalhe: ia sempre munida de um guarda-chuva, houvesse sol ou chuva. Aliás, não abria o guarda-chuva jamais. Não era um abrigo, era uma arma que agitava com fúria.

Foi numa dessas que ela invadiu o campo e deu várias guarda-chuvadas na cabeça do juiz, que, segundo ela, marcara pênalti inexistente. A partir desse dia foi proibida de entrar no estádio com guarda chuva, houvesse sol ou chuva.

Pois Maria Palmeira chegou lá em casa quando já anoitecia. No céu, uma lua cheia de luz. Ela fez com que eu sentasse num degrau da escada dos fundos, de onde a lua parecia ainda mais brilhante, e retirou do bolso um pedaço de carne.

– Cadê birruga? – perguntou.

Mostrei minhas mãos e meus pés.

Ela ordenou:

– Quieto.

Fiquei quieto. Ela começou uma reza sussurrada e cantante enquanto fazia cruzes com a carne sobre cada uma das verrugas. Ela olhava a lua e rezava como se estivesse em transe. Comecei a provocar:

– Cuidado, Maria.

– Que foi, guri?

– Com tanto benzimento, vai cair o meu dedo!

– Te cala, excomungado!

Continuei provocando:

– Ih, meu pé está dormente. Vai cair!

– Ô desinfeliz, cala a boca!

E assim prosseguimos. Ela rezando, eu debochando. Ela de olho na lua e eu dando risadas. Terminado o ritual, Maria colocou o pedaço de carne no bolso e sumiu num passo curto e ligeirinho. Perguntei o que faria com a carne, mas ela não respondeu. Minha mãe me contou: ela iria colocar a carne num formigueiro. E deu uma semana de prazo para as verrugas.

Cinco dias depois, minha mãe olhou para minha mão e se assustou:

– Cadê as verrugas?!

Haviam sumido. Todas. Sem deixar sinal.

Ainda não sei se acredito nos poderes das rezas de Maria Palmeira, mas nunca mais duvidei de benzedeiras.

Roberto Gomes, escritor

Publicado no Aeroporto Jornal – maio/2017

Imagem de Myriam Zilles por Pixabay 

Compartilhe essa história:

COMENTÁRIOS