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05/05/2018

COMEÇAVA A ANOITECER, MAS O CAMINHO JÁ ERA ILUMINADO POR ALGUMAS LÂMPADAS PREGUIÇOSAS, DESSAS QUE FAZEM MAIS SOMBRA DO QUE LUZ. Os dois homens passaram um pelo outro e um deles, mais baixo e usando óculos, cumprimentou:

– Boa tarde!

O outro homem, alto e forte, parou num tranco e se aproximou:

– O senhor disse?

– Boa tarde. É verdade que é quase noite, mas…

– Tá bom. Olhe aqui.

O baixinho olhou na direção da cintura do grandão e viu um cabo de revólver.

– Um revólver? – o baixinho olhou em volta, mas correr não lhe pareceu um bom negócio, as balas seriam mais rápidas do que suas pernas; arriscou: Que mal lhe pergunte, vai fazer o quê com ele?

O outro sorriu:

– Assaltar o senhor.

– Mas isso…

– Sinto muito, doutor, mas tô precisado. O chato é que o senhor me deu boa tarde.

– Desculpe-me. Mas por isso vai me assaltar?

– Não – o grandão chegou a rir – Por isso estou em dúvida. O povo passa por mim e nem me vê, quanto mais dizer boa tarde.

O baixinho respirou aliviado:

– Desistiu, então?

– Não sei.

O baixinho aproveitou:

– Veja. Eu saí para caminhar, estou aqui de bermuda, camiseta e tênis. Não há o que roubar de mim. Que tal deixar para outro dia? Prometo trazer a carteira.

O sujeito tirou o revólver da cintura, olhou em volta e disse:

– Senhor é engraçado.

– Nem tanto.

– Dá boa tarde a quem não conhece, anda por aí quando está anoitecendo e não tem nada no bolso?

O baixinho suava frio, mas manteve a pose:

– Já ouviu falar em Pixinguinha?

– Sim. Eu toco cavaquinho no conjunto lá da vila.

– Pois então. Um dia ele foi abordado por um assaltante. Quando explicou que era o Pixinguinha, o ladrão desistiu do assalto. E Pixinguinha o levou para jantar na casa dele.

– O senhor é compositor?

O baixinho mentiu:

– Sou.

– Tem um rango legal em casa?

– Tem. Vamos lá?

Foi quando passou por eles um sujeito com uma pasta debaixo do braço.

O assaltante pediu:

– Espera aí. Vou ver o que tem naquela pasta e já volto.

O baixinho não esperou.

Roberto Gomes, escritor

Publicada na Now Boarding – maio/2018

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