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05/09/2018

HÁ NÃO MUITO TEMPO, CADA CIDADE TINHA SEUS MALUCOS DE ESTIMAÇÃO, COM OS QUAIS A POPULAÇÃO CONVIVIA.

Conheci um tipo desses em Blumenau. Era um mulato alto, forte, de rosto muito bonito. Carregava um saco de aniagem nas costas e todos o tratavam pelo apelido, Guarapuvu, nome de árvore notável pelo porte e beleza. Falava pouco, mas, quando falava, construía frases bem pensadas e elegantes, além de ter um vocabulário de muito boa qualidade.

No entanto, vivia na rua, dormia nas calçadas. Vivia do que lhe davam.

Alguns juravam que tinha formação universitária, tendo sido professor da rede pública, o que na época era coisa da mais alta qualidade.

Ocorre que certo dia o professor voltou para casa mais cedo e encontrou a mulher naquilo que Lupicínio Rodrigues descreveu como “nos braços de um outro qualquer”.

Foi quando começaram suas andanças pelo mundo.

Em Curitiba também tivemos malucos folclóricos e admiráveis. O mais genial e extravagante de todos foi Gilda, nome sob o qual residia Rubens Aparecido Rinque. Ele – ou melhor, ela – era divertida, dava gargalhadas e debochava de todo mundo, aprontando correrias ao ameaçar um beijo na boca de algum passante. Pintava os lábios com batom vermelho vivo, com o qual besuntava não apenas os lábios, mas seus arredores, produzindo um bocão exuberante.

Pois Gilda era alegre, muito antes que o termo gay se generalizasse. Era divertida, abusada, debochada, irreverente, desrespeitosa, lambendo os próprios lábios com gulodice, anunciando ser sedenta de sexo e de orgias. Encontrou a morte em 1983, talvez numa briga, numa casa abandonada da Desembargador Motta.

Gilda era amada por muitos, mas despertava a fúria dos machões e colocava em xeque o caráter provinciano da cidade.

Já o Esmaga era um homem pequenino, com cara de sátiro, cheio de malícia e astúcia. Circulava pela Boca Maldita a pedir trocados para tomar café. Conhecia a todos e era reconhecido por todos, entre eles governadores, políticos, intelectuais, artistas. Com sua fala malandra e seu sotaque ingênuo, protagonizou causos que constrangiam os poderosos de então, embora ele não fosse contestador do ponto de vista político. Um tipo esperto, que sabia das patifarias humanas naquele centro de fofocas que era a Boca Maldita. Sabia como desmontar poses de pretensos artistas, cineastas, escritores, políticos e picaretas em geral. Esmaga, sem eira nem beira, dizia e fazia coisas do arco da velha.

Hoje não encontramos nada de parecido. Ao invés de personagens que viravam pelo avesso os costumes e crenças urbanas, o que vemos são zumbis, fantasmas de si mesmos. Criaturas doentias, de roupas imundas, de gestos mecânicos de robô, que circulam de um lado para outro produzindo apenas espanto. Não sabem onde estão nem que cidade é essa, corpo e alma corroídos pela droga.

Os doidos de algumas décadas faziam parte da vida de todos. Essas almas penadas atuais são destroços humanos, dos quais não sabemos os nomes e o que representam, já que eles próprios não sabem quem são e o que suas figuras denunciam.

Roberto Gomes, escritor

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Publicado na Now Boarding – setembro/2018

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