Durante muito tempo, quando se falava em hospitalidade de luxo no Brasil, o imaginário apontava quase automaticamente para grandes capitais, resorts de praia e destinos já consolidados. Mas alguns dos projetos mais interessantes da hotelaria brasileira estão surgindo, ou ganhando relevância justamente longe dessa geografia tradicional.

Pantanal, Amazônia, Cerrado e Mata Atlântica começam a revelar uma outra forma de compreender o luxo. Menos baseada em excesso e mais em território, silêncio, privacidade, biodiversidade e acesso a lugares que não podem, e talvez não devam, ser massificados.

A Caiman, no Pantanal Sul-Mato-Grossense, é um dos exemplos mais emblemáticos. Em uma propriedade de aproximadamente 53 mil hectares, a hospitalidade convive com pecuária, pesquisa e conservação. Uma RPPN de 5,6 mil hectares mantém diferentes habitats permanentemente protegidos, enquanto as experiências colocam o visitante em contato direto com a paisagem e a cultura pantaneira.

O interessante é que o luxo, nesse contexto, não nasce de acrescentar elementos ao território, mas de saber interferir cada vez menos nele. As villas privativas da Caiman trabalham com pequenos grupos, guias e veículos dedicados e maior flexibilidade de programação. A recém-inaugurada Cordilheira, por exemplo, possui sete bangalôs voltados para uma mata preservada e recebe grupos de até 16 pessoas. O valor está tanto no conforto quanto na possibilidade de experimentar aquele espaço com privacidade.

Na Amazônia, o Cristalino Lodge, em Alta Floresta, Mato Grosso, leva essa relação ainda mais longe.

Ali, o turismo foi estruturado como uma forma de financiar conservação. O lodge ajuda a manter uma reserva privada de 11.399 hectares de floresta primária, enquanto a Fundação Cristalino desenvolve iniciativas de pesquisa, educação ambiental e conservação no sul da Amazônia. Os grupos nas atividades são limitados a até oito visitantes e a própria operação utiliza soluções como energia fotovoltaica e arquitetura de menor impacto.

Cristalino Lodge

Cristalino Lodge.

É uma inversão importante da lógica tradicional da hotelaria. A natureza não funciona como pano de fundo para o hotel. O hotel existe para permitir acesso à natureza e, ao mesmo tempo, ajudar a mantê-la em pé.

Essa talvez seja uma das expressões mais contemporâneas do luxo. O viajante já consegue encontrar excelentes quartos, boa gastronomia e serviço sofisticado em praticamente qualquer grande destino internacional. O que se torna realmente raro é acordar no meio da Amazônia, observar a floresta do alto de uma torre, navegar por um rio preservado ou permanecer em um território cujo acesso é deliberadamente limitado.

No Cerrado, a Pousada Trijunção parte de uma lógica semelhante. A experiência não tenta apagar as características do bioma para criar um hotel que poderia existir em qualquer lugar do mundo. Ao contrário: safáris noturnos, trilhas botânicas, observação de aves e o trabalho desenvolvido para a observação do lobo-guará em vida livre, em parceria com o Onçafari, colocam o próprio Cerrado no centro da experiência.

Trijunção

Trijunção.

E isso é particularmente relevante porque o luxo brasileiro ainda recorre com frequência a referências estrangeiras quando tenta sofisticar o campo. Importamos o imaginário do safari lodge africano, da country house inglesa, do farmhouse italiano ou da estância argentina. São referências importantes, mas existe uma oportunidade muito maior em reconhecer que o Brasil possui códigos territoriais suficientemente fortes para desenvolver uma estética e uma experiência próprias.

Minas Gerais oferece outro exemplo interessante.

Próximo ao Parque Estadual do Ibitipoca, o Ibiti Projeto reúne cerca de 6 mil hectares de áreas preservadas ou em processo de regeneração e combina hospedagem, rewilding, produção de alimentos, arte e iniciativas voltadas às comunidades da região. O antigo território marcado por café e pecuária vem sendo progressivamente regenerado há décadas.

Ali, a sofisticação assume outra forma. É possível se hospedar em uma antiga casa de fazenda mineira no Engenho Lodge, buscar maior isolamento no Remote ou se aproximar da dinâmica de uma comunidade do Interior no Ibiti Village. São experiências distintas, mas unidas por uma mesma ideia: a hospitalidade não está separada do território que a sustenta.

Caiman, Cristalino, Trijunção e Ibiti são muito diferentes entre si. E justamente por isso são tão interessantes quando observados em conjunto. Pantanal, Amazônia, Cerrado e Mata Atlântica produzem experiências que não poderiam ser simplesmente transportadas para outro país.

O denominador comum está na escassez.

Poucas pessoas. Grandes extensões de território. Natureza preservada. Tempo. Silêncio. Distância. A possibilidade de acessar algo que permanece protegido justamente porque não está disponível indiscriminadamente.

Durante décadas, a maioria das pessoas atrelou o significado do luxo a ter mais. Hoje, talvez algumas das experiências mais sofisticadas estejam ensinando o consumidor a desejar menos: menos ruído, menos gente, menos intervenção e menos pressa.

É nesse contexto que a preservação deixa de ser apenas uma credencial ambiental e começa a funcionar como parte do próprio valor da marca. Se o principal ativo é a floresta, o Cerrado ou o Pantanal, conservar deixa de ser uma atividade paralela ao negócio. Torna-se condição para sua própria existência.

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E há algo especialmente brasileiro nisso. Nosso diferencial não está apenas na biodiversidade extraordinária, mas na possibilidade de associá-la à cultura local, à gastronomia, aos modos de vida do campo, aos materiais, às histórias e à forma particular de receber.

O desafio está justamente em sofisticar tudo isso sem neutralizá-lo. Porque um hotel pode ser replicado. Uma suíte pode ser reproduzida. Uma estética pode ser copiada em poucos meses.

Um território, não. Acredito que o próximo capítulo do luxo brasileiro não esteja necessariamente nas cidades onde já conhecemos seu endereço. Ele pode estar na floresta, no Pantanal, no Cerrado ou no interior de Minas. Em lugares onde o verdadeiro privilégio não é possuir mais, mas ter acesso, por algum tempo, àquilo que ainda conseguimos preservar.

Tamara Lorenzoni, Mestre em Gestão de Marcas de Luxo pela Domus Academy Milano

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