Guaíba, cidade vizinha da capital gaúcha, do outro lado do Rio Guaíba (alguns chamam de lago), é uma cidade com muitas atrações. Ali, a modernidade e a história caminham juntas, oferecendo espaços para lazer e conhecimento. No chamado Sítio Histórico do Município uma das atrações é a Casa de Gomes Jardim, um dos mais importantes líderes da Revolução Farroupilha (1835-1845) que, inclusive foi vice-presidente (1836/1841) e presidente (1841/1845) da República Rio-Grandense, essa definida pelos revoltosos. Foi no pátio desta casa, na localidade chamada de Pedras Brancas que as lideranças Farroupilhas planejaram a invasão de Porto Alegre, em 1835. Também, dois anos após o final da Revolução, sua principal liderança, o General Bento Gonçalves da Silva, faleceu nessa casa aos cuidados médicos de Gomes Jardim, pois ele era militar e médico-prático. No que era o pátio, hoje a praça Gomes Jardim, está o Cipreste, árvore com mais de 300 anos que projeta sua sombra, agora às sepulturas do dono das terras, e de dois familiares. Rente à calçada, três Lanças Farroupilhas – armas usadas pelos Lanceiros Negros, o batalhão de guapos que impressionou Giuseppe Garibaldi, a ponto desse líder ter dito, na Itália que se tivesse uma dúzia apenas de soldados com aquela bravura, ganharia todas as batalhas – se entrecruzam, num ponto em que a capital gaúcha é destacada ao fundo.
Tombada como Patrimônio Histórico e Cultural Riograndense, a Casa tem um museu temático aberto à visitação em dias uteis. Nos finais de semana é necessário agendar. Uma pena! No outro lado da Casa, está a praça da igreja matriz de Nossa Senhora do Livramento. Ali, em todos os meses de maio é realizada a festa em homenagem à Padroeira de Guaíba.

Casa de Gomes Jardim. Foto: Gilberto Sander Mullere
Descendo a rua pela Praça Gomes Jardim, na esquina está o Museu do Gaúcho, que guarda em seus espaços, todos os movimentos da revolução farroupilha, seus heróis e presidentes da República Rio-Grandense, bem como vasto manancial de fotos de figuras ilustres na pesquisa folclórica gaúcha.
O Museu conta a história da Revolução Farroupilha através das cidades históricas do estado, como Pelotas, General Câmara, Piratini, Caçapava, Rio Grande, Camaquã e Guaíba, reconhecida historicamente como Berço da Revolução Farroupilha. Parte da exposição guarda o acervo e as vestimentas das entidades tradicionalistas.
Uma sala exclusiva foi montada pelo pesquisador, escritor e folclorista Paixão Cortes. Desde livros escritos por ele e por Barbosa Lessa, fotos e fatos, estão expostos nas paredes, num armário. Um primor que faz justiça a figura desse grande riograndense, reconhecido no Brasil inteiro e no exterior. Afinal, Paixão Cortes foi o primeiro gaúcho a levar, em 1958, para a Europa, pela antiga e querida Varig – exatamente para Paris – o grupo de danças Conjunto Folclórico Tropeiros da Tradição. Esses guapos se apresentaram, e impressionaram moradores e visitantes da Cidade Luz, nos palcos do Olympia, da Universidade de Sorbonne e do Teatro Alhambra e do Famoso Hotel de Ville de Paris. O Conjunto Folclórico Tropeiros da Tradição foi criado por Paixão Cortes e Barbosa Lessa entre os anos de 1953/54.

Museu do Gaúcho. Foto: Gilberto Sander Mueller
No mesmo Sítio Histórico de Guaíba, fica a Escadaria Quatorze de Outubro (mesmo nome da rua da Casa de Gomes Jardim, que fica no número 384). Essa Escadaria tem 132 degraus, sendo distribuída em sete lances de aproximadamente 18 degraus cada. Cada um descreve locais históricos da cidade onde começou a revolução, em 1835. Nessa subida ou descida, partes da história de como a peleia de 10 anos foi gestada: e mais tarde levada ao verso “os bravos de Gomes Jardim, que atravessaram o rio, desde a barra do Petim, às encostas de Belém / e vêm juntar-se também, os vanguardeiros de Onofre” (trechos do poema pelos 150 anos da revolução Farroupilha, Gesta de Um Clarim, de Guilherme Schultz Filho). Essa é a segunda escadaria com mais degraus no Brasil. A primeira é a famosa Escadaria Selarón, localizada no Rio de Janeiro com 215 degraus e outra história.
Na parte baixa, mas ainda no Centro Histórico, estão a maioria dos cafés, bares e restaurantes. A cidade tem culinária de qualidade. Mas, também na parte baixa, fica o Museu Municipal Carlos Nobre, uma homenagem ao jornalista, humorista e comunicador (Carlos Nobre (1942-1985). Descrever Carlos Nobre – para quem o conheceu e conviveu com ele, como é o meu caso (eu uma foca na redação de Folha da Tarde e ele um humorista de primeira grandeza, com página diária. Nobre fez humor no rádio, no jornal, na TV (no RS e em outros estados) e até atuou com o grande Procópio Ferreira, um dos mais gabaritados produtores de teatro brasileiro) – não é tarefa fácil. Um colega extraordinário, dedicado ao humor e a família, ele e Virgínia formavam um casal especial junto com os filhos que também se dedicaram ao jornalismo, os dois esbanjando categoria: José Evaristo Villalobos Neto (conhecido como “Nobrinho”) e Marco Antonio.
O Museu Municipal Carlos Nobre foi instituído em 1992 e está em um prédio de 1908 com detalhes de Art Nouveau e influências setecentistas.
Na avenida que margeia o rio, a avenida João Pessoa, diversos espaços de lazer permitem caminhadas, passeios de bicicleta sempre junto ao rio, com a vista de Porto Alegre. No trecho bem próximo ao desembarque dos barcos catamarãs, fica o Largo dedicado ao compositor e cantor nativista José Cláudio Machado. Filho de Tapes e que escolheu Guaíba também para mostrar a sua arte, ele está presente numa estátua em bronze em sua homenagem, esculpida pelo artista Léo Santana, o mesmo que criou a Estátua de Carlos Drumond de Andrade, que está instalada próxima ao Posto seis da avenida Atlântica, em Copacabana, no Rio de Janeiro.
Para visitar Guaíba, se a saída for de Porto Alegre, existem duas alternativas. Uma pela BR -290 e depois BR-116 ou pelo rio- isso desde 2011 – com a travessia através de barcos Catamarã, pela empresa Catsul. O terminal hidroviário em Guaíba fica na avenida João Pessoa, 966 onde os passageiros, não apenas de Guaíba, mas também de cidades vizinhas utilizam o serviço, com uma travessia de, no máximo, 20min. A saída de Porto Alegre pode ser pela avenida Mauá, com embarque no Armazém B 3, ou no Pier Pontal, bem em frente ao Shopping. É uma travessia muita atrativa e a visita à Guaíba vale a pena.
Jurema Josefa, jornalista associada à Abrajet-RS (Associação Brasileira de Jornalistas de Turismo – Rio Grande do Sul)






