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05/12/2014

Em 2010 a imprensa brasileira começou a divulgar informações sobre a construção de três estradas ligando o Brasil ao Pacífico como forma de encurtar as distâncias entre os produtos brasileiros e seus consumidores, especialmente na Ásia.

Das três, uma delas passou a chamar atenção do nosso grupo, pois se tratava da Rodovia Transoceânica, ligando o estado do Acre ao Porto de Ilo, inteiramente pelo território peruano. Nos últimos três anos passamos a colher dados e montamos o roteiro. Nossa viagem foi adiada várias vezes, por conta de desabamentos na Cordilheira dos Andes, cheias dos rios amazônicos, entre outros eventos, até que com inauguração da Ponte sobre o Rio Madre de Dios (Madeira), entendemos ter chegado a hora da partida.

Assim, no dia 5 de agosto deste ano, num veículo Honda CRV, eu e Nilda, junto com Roberto e Sueli Karvat, todos com mais de 60 anos, deixamos Curitiba rumo a Presidente Epitácio, bela cidade paulista já na divisa com o Mato Grosso do Sul. Foi nesse dia que percebemos a importância do uso do rastreador instalado pela Link Monitoramento, pois logo ao chegar ao hotel recebemos um e-mail do Sandro Karvat, filho do Roberto e da Sueli, com um resumo do trecho que percorremos e a foto do hotel onde estávamos hospedados. A partir daí viajamos com total tranquilidade, pois sabíamos que nossos filhos nos acompanhariam “passo a passo” e estariam prontos a nos localizar em caso de eventos adversos a que nos expomos quando viajamos em um único veículo.

Até a chegada à fronteira com o Peru, no munícipio de Assis Brasil, no estado do Acre, tivemos o privilégio de conhecer um Brasil que poucos conhecem. A dimensão da cheia do Rio Madeira pode ser percebida em toda a sua magnitude, pois as marcas dos sedimentos podiam ser vistas indelevelmente no corpo e até na copa das árvores da floresta amazônica. Um frentista de posto de combustíveis declarou que no local da bomba de gasolina que naquele momento abastecia nosso carro, haviam “pego um pintado” apenas dois meses antes, mostrando a dimensão dos prejuízos sofridos pelos moradores.

Do lado peruano, a primeira impressão é da entrada em um deserto verde, pois a Amazônia Peruana se mostra na Rodovia Interoceânica. A primeira cidade peruana, Puerto Maldonado, nos revelou uma similaridade com o que conhecemos da China, pois a profusão e confusão dos “tuc-tucs”, motocicletas de três rodas com cabines para passageiros/ou cargas, já revelavam um país diferente dos que já havíamos visitado.

Na sequência começamos a sentir os efeitos da altitude, quando atingimos 4.725 metros acima do nível do mar, e ficamos anestesiados pela beleza da paisagem formada pelos brancos picos das montanhas que passaram a nos rodear. De Cuzco a Puno, visualizamos o interior autêntico do Peru. Com casas distantes uns 500 metros umas das outras, as comunidades se distribuem de maneira uniforme ao longo de toda a rodovia. De se notar o investimento do país em saneamento e educação. As casas originalmente em adobe e palha, receberam cobertura com telhas de metal. Módulos sanitários compostos de banheiro, tanque e caixa d’agua, todos do mesmo padrão, foram agregados a cada uma das residências. De Puno a Arequipa utilizamos uma estrada pouco conhecida até mesmo pelos locais, e até por isso quase sem nenhum movimento. Nesse dia devemos ter preocupado, e muito, os que nos acompanhavam pelo rastreador, porém, a paisagem compensou o risco. Arequipa, uma das cidades mais populosas e antigas do Peru, nos mostrou a riqueza de milhares de anos de história.

Na manhã seguinte chegamos ao Oceano Pacífico e ao porto da cidade de Ilo, ponto final da Rodovia Interoceânica e um dos nossos objetivos. Deixamos o Peru na cidade chilena de Arica, no dia em que uma decisão do governo peruano incorporava uma pequena área da fronteira, com base em uma recente decisão do Tribunal de Haia.

De lá pela região do Chaco, chegamos a Corrientes, na Argentina, acompanhando um grande canteiro de obras que tenta levar água ao deserto, além da duplicação de rodovias, construção de prédios públicos, porém, paradoxalmente, sentimos muito claramente os efeitos da inflação sobre a moeda local. No último dia temíamos as consequências da greve geral (El Paro), que contudo só nos beneficiou com estradas quase desertas. Paso de La Pátria, nosso costumeiro local de pescaria, e finalmente Foz do Iguaçu, com direito a compras no Paraguai e jantar no Cataratas Iate Clube, coroaram os últimos dias da viagem de retorno a Curitiba, após 25 dias de viagem e 10,4 mil km percorridos.

Carlos Gilberto Machado, bancário aposentado

Publicado no Aeroporto Jornal – dezembro/2014

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