Obra foi escrita em 1932 faz um alerta nas suas 312 páginas: temos que preservar os valores da civilização, sob o risco da “distopia”

COMO SERIA UM MUNDO ONDE TODO E QUALQUER LAÇO AFETIVO FOI ELIMINADO PARA O “BEM COMUM”? Um lugar em que o amor é proibido e o sexo, incentivado. Nesse lugar quimérico, as drogas fazem parte da rotina. Afinal, lá elas são necessárias para manter a sanidade, anestesiar o pensamento. As crenças também foram varridas da vida dos habitantes do local, bem como o conceito de família. Tudo foi substituído por uma aproximação administrada das massas, e as futuras gerações virão ao mundo por meio de tubos transparentes e sofisticados exercícios de manipulação genética. Você consegue imaginar?

Pois é justamente esta a – fictícia? – realidade concebida pelo britânico Aldous Huxley no livro “Admirável Mundo Novo,” uma das obras mais festejadas da literatura mundial, responsável por trazer à luz o termo “distopia”, ao ilustrar uma sociedade na qual certos valores fundamentais não existem ou foram distorcidos. Aliás, outra característica das culturas distópicas: em geral, os integrantes desses grupos são incapazes de notar o abismo em que estão imersos. 

Devorar

Na trama, o protagonista Bernard Marx é levemente diferente dos outros, o que o faz sentir-se deslocado entre seus pares. Ao buscar respostas para seus dilemas numa reserva onde alguns dos antigos modos ainda são mantidos – algo semelhante aos aldeamentos indígenas norte-americanos – ele acaba por colocar em cheque todas as suas certezas: aquilo que ele acredita ser a verdade, e a própria realidade que lhe é apresentada. 

Àqueles que se arrepiam quando ouvem falar em um “clássico”, vale lembrar que o “mundo novo” não é daqueles livros maçantes. Apesar da densidade de seu conteúdo, o leitor não tem dificuldade para devorá-lo em algumas horas. Mas cuidado: caso você seja tragado pela leitura e o conteúdo fique impregnado em sua mente por muito tempo, isso pode ser indício de que “o abismo em que estamos imersos” lhe perturba – então, aprecie com moderação. Ninguém quer ser um “desajustado”, afinal de contas. GloboLivros. R$ 24,90.

Amanda Chain, crítica literária

livrariasdochain.com.br

Publicado na Now Boarding – dezembro/2017