Quem estudou história na infância ouviu falar da Rota da Seda. Basicamente eram duas rotas comerciais, uma marítima e outra terrestre. Ligavam a Ásia à África e a China à Europa. Começou a ser utilizada no ano 200 a.C e só foi desaparecer no século XV. A via terrestre dessa Rota tem entre 6,4 mil e 10 mil km, dependendo do historiador. E é nessa aventura que está o casal Ana Borges e José Joaquim Andrada junto com a cachorrinha Clicquot.

Como todo aventureiro, Ana, 57 anos, e José Joaquim, 62 anos, deixaram a rotina de suas vidas para trás (ela trabalhava com projetos culturais e artísticos e ele com engenharia) e apostaram numa vida de nômades que teve inspiração num casal português que conheceram no Irã, em 2019, estava fazendo a Rota de moto. A proeza começou com a compra, em Portugal, em 2022, de um motorhome ano 1988 que foi batizado de Popopôa. A nova casa tem 9 m².

Mas não foi comprar e colocar a Popopôa na estrada. Em julho de 2023 os dois foram a Portugal e por lá ficaram por oito meses preparando o motorhome (revisão, melhorias necessárias como placa solar e aumento do tanque de água, alarme etc) e “aprendendo a viver essa vida, nunca tínhamos entrado em um motorhome antes”, recorda Ana.

Travessia do Deserto de Ambar, Iraque Federal, jovens.hamaistempo

Travessia do Deserto de Ambar, Iraque Federal.

Foi em março de 2024 que foram para a estrada com destino à China, mas “sem pressa, no nosso ritmo, conhecendo o que desse vontade”, diz Ana. Seis meses depois, Ana e José Joaquim deixam a Europa para trás e entram na Ásia. Visitam Turquia, Curdistão, Iraque Federal, Jordânia, Arábia Saudita, Bahrein, Qatar, Emirados e Omã que, destaca Ana, “já é parte da Rota da Seda e por onde desde a antiguidade, circulavam caravanas de comerciantes com um grande fluxo de produtos”.

Aqui, um parêntese no texto. Você deve estar se perguntando por que Iraque Federal. José Joaquim explica: Porque depois o país é dividido em dois: uma região autônoma, que é o Curdistão do Iraque (tem presidente, bandeira, visto próprio, mas não é independente) cuja capital é Erbil, e o Iraque Federal cuja capital é Bagdá. Se você entra por fronteiras com o Curdistão, você precisa de dois vistos: do Curdistão e do Iraque propriamente. Se você entra por fronteiras com o Iraque um visto abrange as duas áreas. Tem postos de controle tipo Polícia Federal que controla o acesso e verifica os passaportes quando você cruza Mossul e Kirkut que são as principais estradas que ligam as duas regiões. Se você vai pelas vias secundárias, eles mandam você voltar para pegar essas estradas. É tipo um controle de visto/fronteira mesmo, mas interno”.

Mais três anos

Retomando. A Popopôa passou por estradas estreitas da Itália, desertos da Arábia Saudita e montanhas no Iraque.
A jornada tem sido um misto de superação e encantamento.
“Cruzar a fronteira da Grécia para a Turquia foi emocionante. Foi o momento em que deixamos a Europa e entramos na Ásia. Depois, atravessar o Curdistão e o Iraque Federal foi um divisor de águas: somos pioneiros, os primeiros brasileiros a viajar essa região de motorhome. No Oriente Médio, fomos recebidos com chá, comida e até convites para dormir nas casas das famílias locais. A generosidade é imensa”, relembra.

Esses países foram visitados até agosto de 2025 quando tiveram que voltar ao Brasil. A Popopôa ficou estacionada na Grécia.

Agora, resolvidas questões familiares, é hora de voltar e completar o percurso da Rota da Seda.

Ana e José Joaquim viajam em janeiro de 2026 para a Alexandrópolis, última cidade da Grécia antes de cruzar a fronteira com a Turquia, pegam o motorhome voltam para a Turquia para visitar destinos que ainda não conhecem, seguem para o Iraque (para conhecer a parte Sul do país) e, depois, Irã onde pretendem ficar de dois a três meses.

A partir do Irã, em meados de maio de 2026, o casal tem, explica Ana, “quatro rotas possíveis que dependem de geopolítica e infraestrutura. A nossa preferida é a que passa pelo Afeganistão, mas não temos informações seguras sobre a inclinação das montanhas e precisamos ter um mínimo de certeza que a Popopôa consegue transitar e subir as montanhas para chegar no Tajiquistão ou no Uzbequistão. Não somos 4×4”.

Mas por que tanto tempo? Ana responde: “Tem uma região que corta os Himalaias que é de pura montanha, que podemos atravessar apenas entre final de maio e meados de outubro, o mais tardar. Precisamos esperar o degelo da neve para não enfrentar situações de vulnerabilidade com o degelo das montanhas no início da primavera e não podemos passar depois que começa a nevar no final do outono”.

Se até agora o casal já rodou mais de 40 mil km e cruzou 22 países, a nova aventura será de até três anos de viagem com tudo documentado no Instagram que leva o nome de projeto “Jovens, há mais tempo” e também no YouTube.

Até voltar a Portugal, o encerramento da viagem e do projeto, serão, segundo estima o casal, mais  27 a 30  países: Irã + três (até chegar na China), China, Laos, Camboja, Tailândia, Malásia, Singapura, Vietnã (depois volta esse caminho até a China de novo) Mongólia, Rússia, mais três (entre Finlândia, Suécia, Dinamarca ou Estônia, Letônia, Lituânia), Polônia, República Tcheca, Eslováquia, Hungria, Romênia, Bulgária, Sérvia, Kosovo, Bósnia, Croácia, Itália e, finalmente, Portugal.

Riad, Arábia Saudita, jovens.hamaistempo

Riad, Arábia Saudita.

A previsão do casal é gastar cerca de R$ 300 mil entre 48 e 50 meses de viagem, cerca de € 48,4 mil. As despesas serão feitas “quase que 90%” em cartão europeu e a comunicação com familiares e amigos será com um celular com que um plano família que permite usar 100GB na Europa, mesmo assim, em cada país, o casal compra um chip local.

Mais do que uma viagem de aventura, o projeto é uma mensagem: “Queremos inspirar pessoas, especialmente da nossa idade, a realizar seus sonhos e quebrar preconceitos sobre envelhecer”, diz Ana.
O casal acredita que o envelhecimento pode ser uma fase de expansão, e não de limitação.
“Existe muito etarismo na sociedade e, também, preconceito com o desconhecido. Queremos mostrar que é possível envelhecer com curiosidade, coragem e movimento e que o Oriente Médio, por exemplo, é um lugar repleto de belezas e hospitalidade, não só de conflitos”.

Ana e José Joaquim acumulam histórias suficientes para um livro e um documentário. “O Zé, diz Ana, mantém um diário detalhado de cada dia da viagem” e, por isso, um amigo cineasta está para transformar o material em filme.

Jean Luiz Féder, jornalista associado à Abrajet-PR (Associação Brasileira de Jornalistas de Turismo – Paraná, e apoio Com Leite Assessoria de Imprensa

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