A Rota Gastronômica das Matriarcas de Trancoso apresenta a seus visitantes a cozinha de mulheres que transformaram ingredientes do mar, da roça e dos quintais em sustento, hospitalidade e identidade. Algumas delas criaram restaurantes e conquistaram clientes para suas criações que revelam uma culinária transmitida entre gerações.
Conheça seis restaurantes que contam essas histórias.
Ali Na Janete, um pedaço de Trancoso em cada prato
Nativa de Trancoso, Janete Vieira Bonfim começou na praia, preparando moquecas, frutos do mar e receitas baianas.
Em 2000, levou sua cozinha para o Quadrado e fundou o Ali Na Janete, mantendo uma culinária generosa, afetiva e ligada às suas origens.
O restaurante acompanhou a projeção internacional do destino sem renunciar aos sabores locais.

Janete. Foto: Embratur
Camarão na moranga, bobó de camarão, pirão, farofa de dendê, aipim, leite de coco, pescados e frutos do mar traduzem essa identidade.
Hoje, os filhos, entre eles Niele, e o genro participam da continuidade da casa. “Trancoso mudou, recebeu gente do mundo inteiro, mas nossa cozinha continua contando de onde viemos. Meu maior legado é ver minha família seguindo essa história”, afirma Janete.
Silvana e Cia, quatro décadas de sabor e dedicação
Silvana e José Vieira fundaram o Silvana e Cia em 1982, dentro da própria casa.
Tudo começou com pão caseiro, cocada, limonada e suco de maracujá. Com a chegada de viajantes e hippies, Silvana passou a preparar peixe frito, arroz, feijão, banana-da-terra e couve.
Sem formação gastronômica, criou intuitivamente uma cozinha baseada na tradição familiar e nos produtos disponíveis. A casa acompanhou o crescimento de Trancoso sem perder sua identidade.
Moquecas, bobó e peixe assado na folha de bananeira estão entre os clássicos, com ingredientes como biribiri, coentro-maranhão e fruta-pão. Filhos e netos participam hoje da continuidade do negócio. “O cardápio acompanhou o tempo, mas o sabor continua o mesmo. Ver meus filhos e netos seguindo essa história é saber que tudo permanece vivo”, conta Silvana.
Casa Rabanete, o tempero de Mainha atravessa gerações
Criado pela família em 1993, no histórico Quadrado, o restaurante, hoje Casa Rabanete, tem Dona Glória Possa, carinhosamente chamada de Mainha, como inspiração e referência gastronômica. A casa começou como pizzaria e, por volta de 2000, adotou o formato self-service, tornando-se conhecida pela mesa farta, variada e preparada diariamente.
A cozinha preserva receitas, temperos e o acolhimento de Mainha. Moquecas, peixes assados, carne do sol com purê de aipim, cocadas, bolos, compotas e a Coxinha de Mainha traduzem essa memória.

Dona Glória.
Hoje, o legado atravessa três gerações e alcança também Arraial d’Ajuda e Porto Seguro. “Ver tanta gente gostando da nossa comida e voltando é uma alegria. É uma história que continua com meus filhos e minha família”, celebra Dona Glória.
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Cantinho Doce, sabores do antigo Quadrado
O Cantinho Doce nasceu em 1987 pelas mãos da trancosense Cássia Vieira Borges. Ela mantinha uma farmácia no Quadrado e, durante as festas de São João, montava uma barraquinha para vender doces, caldos e comidas típicas. O sucesso levou à abertura do restaurante ao lado da farmácia.
Cássia guarda a memória de um Trancoso essencialmente de nativos, quando galinhas circulavam pelo Quadrado e moradores estendiam ali suas roupas. “O Quadrado era nosso quintal”, recorda.
Frutos do mar frescos, tapioca, coco, banana e pimenta-de-cheiro traduzem essa relação com o território. O strogonoff de lagosta no abacaxi tornou-se o prato emblemático e campeão de vendas da casa. Com os filhos participando da trajetória, o restaurante segue reconhecido pelo sabor, qualidade e acolhimento. “Vi Trancoso se transformar, mas procurei manter o sabor, o carinho e a essência daquele tempo. Ver meus filhos participando é saber que essa história vai continuar”, afirma Cássia.
Casa da Glória, uma casa de família aberta para o mundo
Fundada em 1987 por Maria da Glória e João Grande, a Casa da Glória nasceu quando Trancoso ainda guardava o cotidiano de uma pequena vila de pescadores. Ele trazia alimentos do mar e da roça; ela, cozinheira, parteira e mãe de 18 filhos, transformava os ingredientes em refeições para familiares, amigos e os primeiros visitantes.
A Casa cresceu com o turismo e tornou-se restaurante e pousada.
Após a morte de Dona Glória, em 2011, suas descendentes mantiveram vivo seu legado, preservando receitas, valores e o acolhimento familiar. Feijoada, bobó de camarão, caruru, cocada, pescados e ingredientes regionais mantêm a conexão entre mar, terra e memória.

Preservar o jeito de cozinhar e receber de Dona Glória (foto da capa) tornou-se uma forma de fazer sua história atravessar gerações.
O Cacau, a Bahia entre o sagrado, a arte e a cozinha
Fundado em 1999 por Dora Miranda e Julieta Lemos, O Cacau nasceu próximo à histórica Igreja do Quadrado.
Baiana do Recôncavo e moradora de Trancoso desde os anos 1980, Dora reuniu referências culturais, gastronomia e hospitalidade. Mais tarde, sua irmã, Maria de Fátima, tornou-se sócia, fortalecendo o caráter familiar do negócio.
A localização foi um dos primeiros desafios: aquela parte do Quadrado era pouco movimentada e muitos duvidaram da escolha. O tempo transformou a aposta em referência gastronômica.
A cozinha contemporânea preserva raízes baianas em criações como o Acarajé da Dora, o beiju com queijo e o camarão nativo com coco seco. Arte sacra, referências aos orixás, música brasileira e jazz completam a experiência, mantendo a Bahia presente na cozinha, na atmosfera e no jeito de receber.
Com informações da Secretaria Municipal do Turismo de Porto Seguro






