Três dias em junho, de 26 a 28, só tem duas cores em Parintins, cidade a 369 km de Manaus, no Amazonas. A azul do Boi Caprichoso e a vermelha do Boi Garantido. O Festival de Parintins é um espetáculo que movimenta a economia e mais de 120 mil visitantes.
Em 20206 acontece a 59ª edição do Festival de Parintins, encontro que coloca frente a frente os bois Caprichoso e Garantido em três noites de música, teatro, dança, artes plásticas, saberes ancestrais e narrativas que nascem da própria Amazônia.
Em cena, mitos, lendas, referências indígenas, africanas e europeias se encontram com as histórias de povos ribeirinhos, indígenas e caboclos, que assumem o protagonismo de suas próprias narrativas por meio das toadas, alegorias, coreografias e personagens que movimentam a arena.
Reconhecido como Patrimônio Cultural do Brasil desde 2018, o Complexo Cultural do Boi Bumbá do Médio Amazonas e Parintins representa a memória coletiva, a identidade e a força criativa dos povos da região. Esse reconhecimento ajuda a dimensionar a relevância de uma tradição que ultrapassa a arena e se conecta à formação cultural brasileira.
A cada edição, o Festival reafirma sua singularidade ao unir criação artística, pertencimento e representatividade. O resultado é uma celebração que projeta a cultura amazônica para o Brasil, sem perder a profundidade de suas raízes locais.
Para Fred Góes, presidente do Boi Garantido (foto da capa), Parintins representa a cultura brasileira em sua essência. “Quando observamos os folguedos do Brasil, percebemos que todos carregam essa característica fundamental, que é a mistura de culturas. Na Amazônia, essa diversidade se torna ainda mais evidente. Somos uma região que historicamente viveu certo isolamento, o que fortaleceu uma identidade própria, construída a partir de múltiplas influências. O Festival de Parintins cumpre um papel fundamental ao tirar a Amazônia da invisibilidade cultural e projetar nossa identidade para todo o Brasil”, afirma.
Segundo ele, o boi-bumbá incorpora influências de diferentes regiões e povos, mas ressignifica tudo a partir da realidade amazônica. “O resultado é um espetáculo que dialoga com o Brasil inteiro, sem perder suas raízes. Passamos meses debatendo, construindo narrativas e buscando formas de traduzir, na arena, temas que falem da nossa história, da cultura amazônica e também de questões universais”, completa.

Boi Garantido.
Do lado do Caprichoso, Ericky Nakanome, presidente do Conselho de Artes, vê o Festival como um reflexo potente da brasilidade construída a partir do Norte. Para ele, não se trata de sintetizar todo o Brasil, mas de revelar, pela arte, uma identidade amazônica viva, plural e em constante transformação. “Ao observar o Festival, percebo que muitos dos elementos que formam o Brasil estão presentes, especialmente as matrizes indígenas, africanas e europeias, expressas nos itens, nas temáticas e nas toadas. Ainda assim, o Festival traduz, acima de tudo, a identidade do povo do Norte”, analisa.
Essa fusão de referências aparece na estética do boi-bumbá, nas narrativas apresentadas na arena e na própria história de Parintins. A cidade, marcada pela circulação entre Belém e Manaus e por ciclos migratórios como o da borracha, tornou-se um território de encontro entre povos, símbolos e expressões artísticas.
Para Fred Góes, essa herança é o que faz de Parintins um farol cultural. “O Festival é mais do que um espetáculo. É um espaço de reflexão, identidade e valorização da nossa cultura. É a prova de que, por meio da arte, conseguimos contar quem somos e como queremos seguir enquanto sociedade”, finaliza.
Na leitura de Nakanome, o Festival de Parintins funciona como um grande eco cultural: “Ele não sintetiza todo o Brasil, mas reverbera uma brasilidade construída a partir da Amazônia, viva, diversa e em constante transformação”.
Com informações da VN Assessoria






