Vale a pena. Muita a pena! Talvez você já tenha visitado lugares que por mais fotos ou filmes que fizesse e depois contasse aos amigos, não conseguiam expressar a beleza e a emoção da visita. Você tenta explicar, mas faltam palavras, que nem as fotos e vídeos adiantam. Os Lençóis Maranhenses é um desses lugares. E olha que conheci na seca, quando as lagoas são muito poucas. Os Lençóis ficam a quase 6 horas de carro de São Luís, a capital do Maranhão.

O Parque Nacional Lençóis Maranhenses que tem uma área de 1.550 km² e é administrado pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, o ICMBio, pode ser visitado sem cobrança de entrada. Os Lençóis Maranhenses têm cerca de 10 mil anos.

Da capital do Maranhão é preciso cruzar cerca de 290 km da BR-402, rodovia de pista simples. Não vale a pena alugar um carro; o melhor é contratar o serviço de transfer (verifique se o seu hotel faz. No nosso caso, contratamos a R$ 350/pessoa com o Geovane – 98-99126-0758, incluindo o barco para Atins) porque você vai ter que fazer uma travessia de barco a partir da cidade de Barreirinhas, porta de entrada dos Lençóis, para atingir o distrito de Atins, um povoado com quase 2 mil habitantes onde só se anda com veículo 4×4 ou a pé.

Rio Preguiças, a caminho de Atins.

O nome Lençóis Maranhenses, se deve, segundo se diz, a partir da imagem de um lençol que se coloca sobre a cama e forma, de vez em quando, “bolhas” ou “dunas”. Ali num perímetro de 270 km há um ecossistema de mangue, dunas e restingas inserido num bioma costeiro marinho. Ok, mas como as dunas, algumas com até 30 metros de altura, se formam? Lá fui fuçar o Google para encontrar uma explicação.

No site da USP a informação é a seguinte: “As dunas nos Lençóis Maranhenses são formadas-modificadas pela ação do vento devido a constante retirada e deposição de areia. Ao longo dos anos, as dunas migram progressivamente na direção dos ventos predominantes. Esta continua alteração provavelmente reflete nas características físicas, químicas e biológicas das lagoas, com modificações na composição e dominância de espécies”.

A Revista Fapesp Pesquisa, na edição de março de 2023, publica o artigo “Segredos nos Lençóis Maranhenses” que a certa altura diz: “As dunas se movem graças a um fenômeno chamado de saltação. Tudo começa quando o vento sopra com força suficiente para levantar do chão alguns grãos de areia. Ao caírem de volta, esses grãos colidem com outros, que respingam para cima. O número de grãos saltando aumenta cada vez mais, até formar uma nuvem de areia rente ao chão, com até 15 centímetros de altura. Se o vento sopra sempre numa mesma direção, as dunas assumem uma forma de meia-lua conhecida como barcana, um monte com dois braços orientados na direção do vento. A saltação acumula areia sobre as costas das barcanas e faz os grãos subirem até seu topo, antes de deslizarem sobre avalanches para o outro lado. Assim as barcanas crescem e se movimentam empurradas pelo vento”. Vale a leitura que está nesse link.

E, agora, entendendo um pouco da sua formação, vale dizer que os Lençóis estão listados no best-seller editado em 18 idiomas “1.000 Lugares para conhecer antes de morrer – Um guia para toda a vida”, de Patricia Schultz. Diz ela à página 402 do livro que os Lençóis são “uma paisagem inimaginável para quem não a conhece”. Se você, brasileiro, não conhece, está na hora de programar a viagem. Aposto que na volta, vai ser difícil escolher o adjetivo que melhor represente os Lençóis.

A tranquilidade de Atins.

Quando ir

Deixamos Curitiba eu, Sonia Bittencourt, Eros Féder e Viviane Mayr, no voo da Azul às 9h45 numa quinta-feira com escala em Viracopos e chegamos em São Luís às 16h. A volta, também com a Azul, foi no voo às 16h55 com parada no Aeroporto de Viracopos em pouso em Curitiba às 23h55.

Ao programar sua viagem você pode escolher a época do ano para ver os Lençóis cheios ou com poucas lagoas. De fevereiro a maio é a estação das chuvas e de junho a janeiro a da seca. Tudo vai depender das condições das chuvas na região, então novembro e dezembro devem ser os meses com menos lagoas.

Uma recomendação para colocar na bagagem: não pode faltar protetor solar, boné e garrafa para água. Vai precisar.

Ficamos alguns dias na capital – isso conto mais adiante – e fomos para Atins com hospedagem na pousada Lagoa do Vento (indicação do irmão da Viviane, Tino) por três dias a R$ 2.435,40 o casal.

Lagoa do Vento. Divulgação

A pousada é de um casal francês e três paulistas, tem seis acomodações e os apartamentos têm cama ótima e banheiro muito bom, ar-condicionado (essencial para dormir bem), os travesseiros são perfeitos e uma varanda com rede. Não tem tv – e não faz falta! Com piscina (o irmão da Viviane não teve essa sorte porque ela foi recém-inaugurada), a Lagoa conta restaurante e o café da manhã, na baixa temporada, é bem servido. Só éramos nós de hóspedes.

Tente aproveitar e relaxar na piscina e peça um gin tônica (R$ 39), casquinha de caranguejo (R$ 58) ou dadinhos de tapioca (R$ 42).

A Iara, Rafaela e João foram super atenciosos.

Em Atins não é recomendável beber água da torneia e água você vai tomar muito porque a temperatura passa fácil dos 35ºC, por isso a importância de levar seu cantil.

Em frente ao Rio Preguiças – são quase 60 minutos de barco a partir de Barreirinhas – Atins está fora do Parque Nacional, mas bem próximo dele. A comunidade é simples, como sua infraestrutura, mas tem o essencial para passar dias tranquilos.

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Os Lençóis

É tudo próximo, mas não se arrisque a caminhar. A areia é muito fofa, cansativa para andar, o sol escaldante e, à noite, a iluminação pouca. Arriscamos ir a Casa de Juja, um dos restaurantes recomendados de Atins. São 850 metros. O Google Maps diz que são 11 minutos de caminhada. Mentira! Depois de alguns metros cada passo fica mais difícil. Foram cerca de 25 minutos para chegarmos exaustos ao restaurante. Mas tinha água e cerveja gelada para recompensar.

Casa de Juja é comandada por Luana, filha de Juja, e tem um ano e meio em Atins (há uma unidade em São Luís). Serve almoço e jantar todos os dias e em março entra em férias coletivas.

Nosso pedido foi Delícias do Mar (camarões e lagostas grelhadas, filé de pescada em crosta de castanha e vegetais grelhados ao azeite, servido sobre placa de pedra sabão, a R$ 240), e Sonha de Juja, uma receita criada pela Juja (lagostinhas, camarões, patinhas de caranguejos, mexilhões misturados ao arroz cremoso e molhadinho, a R$ 150). Tudo com bebidas deu R$ 496,10 para quatro pessoas. Na volta, espertos, pedimos um carro e chegamos à pousada em menos de 4 minutos.

Sonho de Juja.

Vá ao La Pizza, em frente ao Lagoa do Vento, de culinária italiana e pizza napolitana. A bruschetta (clássica ou caprese) é excelente, como as massas que são artesanais (provamos e aprovamos o ravioli de carne) e produzidas diariamente e as pizzas, de massas finas e casca crocante.

Mas deixemos a comida de lado e vamos aos Lençóis.

Você vai ter que contratar um serviço que inclui o transporte (caminhonete 4×4) com um guia. É possível alugar um quadriciclo e ir sozinho, mas o risco de ser perder na imensidão das dunas é muito provável.

Lençóis Maranhenses.

Por indicação do pessoal da Lagoa do Vento, contatamos o Everton (98-99238-3869) e com ele fizemos diversos passeios. Fomos aos Lençóis, com direito a ficar o tempo que quiser numa lagoa, no nosso caso a Lagoa do Gavião (guia leva cadeira) e almoço no restaurante do Sr. Antônio. Serve camarão grelhado na brasa (arroz de cuxá, feijão de corda, farofa e vinagrete, R$ 140), peixada para duas pessoas (arroz branco e pirão, R$ 150) e carne de sol, também para duas pessoas (baião de dois, farofa e vinagrete, R$ 120) entre outros pratos. Pegamos um barco e fomos ver a revoada dos Guarás com direito a um pôr do sol magnífico; alugamos quadriciclo e fizemos um transfer para o restaurante Stresse Zero de onde, segundo diz, tem o pôr de sol mais lindo de Atins. Ele fica à beira d’água, tem redes para descansar, e é um bom local para passar o dia e tem, sim, um belo final de tarde. Tem umas pingas bem diferentes para provar.

Pinga no Stresse Zero.

São Luís

Sobre o quadriciclo. Em 10 minutos – ou menos – você aprender a dirigir. O difícil é andar com o dito na areia. Até agora não sei se é melhor andar no rastro de quem passou antes ou tentar fazer o caminho. Mas é uma experiência bem legal que, já que está lá, tem que fazer. Esses e outros serviços deu R$ 5,1 mil para os quatro.

Para quem é mais radical, Atins oferece oportunidade de fazer stand up paddle, caiaque, surfe, kitesurfe e windsurfe.

Numa manhã, Eros e Viviane pegaram um quadriciclo 4×4 e foram passear até Mandacaru, uma vila de pescadores que fica entre a praia de Caburé e a praia de Atins, e onde mora a maioria das pessoas que trabalham em Atins. “Seguimos – conta Eros – numa estrada arenosa e sinuosa até o Farol Preguiças, com o tamanho de oito andares que lá do alta tem uma vista linda. Saboreamos um belo sorvete de frutas regionais, tomamos banho de rio e conversamos com os moradores. Ali tem uma feirinha de artesanato. Voltamos felizes por termos feito o passeio”.

Não dá vontade de deixar Atins e sua vida tranquila. É bom fazer turismo, ficar tranquilo, ficar mais tempo sem ver o celular, com a preocupação singela de não perder o café da manhã e depois decidir o que fazer o resto do dia. Mas isso, sempre tem um começo, meio e fim.

E o fim é pegar o barco para Barreirinhas, deixar os 25 km de dunas dos Lençóis, navegar pelo “tapete” do Rio Preguiças e rodar até São Luís.

Os Lençóis Maranhenses foi considerado o segundo parque nacional mais bonito do mundo. É o que revela um estudo realizado pela empresa Bounce que analisou os principais parques em todo o planeta por meio de suas postagens nas redes sociais, pesquisas no Google e dados de avaliações de clientes. O Parque Nacional Kruger, na África do Sul ocupa a primeira colocação da lista e a terceira está com o Parque Nacional Bromo Tengger Semeru, na Indonésia.

O estudo, divulgado em janeiro de 2024, aponta os Lençóis Maranhenses como o atrativo mais bem cotado nas avaliações do Google, com nota 4,9 em 5, e ocupa o terceiro lugar em visualizações do TikTok, com pouco mais de 292 milhões. O parque também ocupa o quinto lugar em postagens no Instagram, com 505.603, e as buscas no Google por “Lençóis Maranhenses” totalizam 70,8 mil.

Nossa hospedagem na capital dos maranhenses foi no Ibis São Luis.

Pegamos o Ibis reformando apartamentos e, por isso, tivemos alguns contratempos. É, como todo bandeira Ibis da Accor um hotel para quem quer passar a noite. Percebemos problemas de limpeza e mofo na primeira hospedagem. Eros e Vivi tiveram que trocar de quarto por causa do cheiro. Trocaram de quarto. Eu matei uma barata no nosso apartamento. No retorno de Atins, ficamos em apartamentos melhores que já estavam reformados bem mais limpos. Mas é difícil se acostumar com um banheiro sem toalha de rosto.

São Luís tem 411 de história e, por isso, não deixe de passear no centro para ver os azulejos portugueses que emolduram residências. É a história nas fachadas das casas.

Ficamos poucas horas na capital, mas fomos duas vezes na Praia de São Marcos na Av. Litorânea onde tem uma praia que para chegar da areia ao mar são cerca de 140 passos e onde há vários bares e restaurantes.

Os bares são pé na areia. No Dunas Beach a pegada é pagode e forró e tentamos um pouco de distância do som. Pedimos nosso primeiro caranguejo (5 unidades a R$ 64,90), carne de sol (R$ 74,90) e, para conhecer, arroz de cuxá (R$ 16) que, ok, conhecemos. Com couvert artístico e bebidas, R$ 321,62.

Pôr do sol

No Estrela Dalva 2 mais caranguejo. Dessa vez com leite de coco (R$ 67) que foi o melhor caranguejo que Eros, Viviane e Sonia já comeram (eu não sou muito de); tanto que pediram duas vezes; caranguejo toc toc sem cabeça (R$ 57); camarão a milanesa (R$ 79) que não estava com essa graça toda. Os quatro pagamos, nessa sentada, com bebida, R$ 448,20. Voltamos outra vez no Estrela para repetir o caranguejo com leite de coco que tem essa receita: leite de coco, tomate, cebola, pimenta de cheiro. Refoga. Põe extrato tomate, corante, leite de coco, cozinha um pouco e depois coloca o caranguejo.

Nessa Avenida, no outro lado da rua, tem o Blaus, uma ótima sorveteria com diversas opções que vão do cupuaçu, carimbo, bacuri, castanha do pará, açaí, taperebá (igual a cajá) a tapioca, passando por tradicionais como maracujá, flocos e floresta negra. Tem linha zero lactose e zero açúcar. Os preços variam, mas um copinho com uma bola de sorvete diet sai por R$ 17. E dá para provar cada um antes de fazer o pedido.

O restaurante Cabana do Sol, também na Litorânea, foi indicado por várias pessoas, seja no hotel, no Uber e conhecidos, entretanto, apesar do local ser muito bonito não achamos tudo isso que falaram. Pedimos patinha a milanesa (R$ 97) e baião de dois (R$ 28) como aperitivos e não ficamos para jantar. Com bebidas deu R$ 243,33.

Já no centro da cidade fica o Cafofinho da Tia Dica, outro famoso e São Luís. Ele é um refúgio com ar-condicionado depois de uma caminhada. Fica na Travessa Marcelino Almeida, 173. A pedida foi um filé de tambaqui (R$ 139) e arroz do mar (R$ 128) que deu bem para todos. Tem música ao vivo e ouvimos o Felipe Telles com uma excelente seleção de MPB. A nota, com couvert, ficou em R$ 473,20.

No centro (como estávamos hospedados do outro lado, tivemos que cruzar a ponte sobre o Rio Anil) dá para conhecer o tradicional Mercado das Tulhas (R. da Freira Praia Grande) com coisas da região, caminhar pela Rua Portugal, ir à Praça Nauro Machado, ao Centro Cultural Vale do Maranhão e ao Museu do Regaee. Batendo perna, sempre dá para descobrir algo.

Centro Cultural Vale do Maranhão.

Imperdível é ver o pôr do sol na Ponta da Areia. Antes de ir, verifique que horas o sol vai se pôr e chegue antes para poder pegar um bom lugar no Espigão Costeiro e tomar uma água de coco ou cerveja.

Deixe a noite cair e caminhe aproveitando o frescor do início da noite para ir ao Champs Mall. Vai encontrar uma concentração de restaurantes num cenário muito bonito com vários lounges na areia. Confesso que foi uma bela surpresa encontrar um local tão atraente.

Entre as diversas opções, fomos no Smoke SLZ para “desintoxicar” de tanto frutos do mar. A linguiça artesanal foi o aperitivo a R$ 49 e pedimos dois sanduíches: um clássico (com bacon) a R$ 29, e o duplo com salada (bacon e picles) a R$ 37 que, para nosso espanto, tinha um hambúrguer que se desmanchava na boca. Nunca havia degustado um hambúrguer tão bom.

Champs Mall.

E a noite ainda reserva outra boa surpresa, esta para Sonia. Andando pela areia chegou um vendedor oferecendo ostra. À princípio olhamos com desconfiança porque passamos a viagem inteira procurando ostra sem sucesso. Com o vendedor já abrindo uma, viramos para o garçom que disse que poderíamos comer sem receio. E ele estava certo: as ostras estavam maravilhosas, com o seu Alcides, de 52 anos e sete filhos, (98-98400-9450) abrindo cada uma e servindo com limão e um sal “preparado pela dona encrenca”. As ostras ele mesmo pega em Raposa, a 20 km de São Luís. Foram algumas dúzias a R$ 35 cada. Foi uma noite especial para encerrar nosso último dia de viagem.

Jean Luiz Féder, jornalista associado à Abrajet-PR

Atualizado em 04/janeiro/2024 e em 19/janeiro/2024

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