O universo do turismo de bem-estar (wellness tourism) cresceu de forma explosiva, alinhando duas indústrias trilionárias – turismo e saúde preventiva – em um segmento de alto valor agregado.

Segundo o Global Wellness Institute, os gastos globais com viagens focadas em bem-estar chegaram a cerca de US$ 830 bilhões em 2023. O setor já supera em margem de crescimento quase todas as demais áreas do mercado de consumo: em 2023, o turismo de bem-estar registrou expansão de 30,3% em relação a 2022, reflexo da explosão pós-pandemia e da preferência crescente por experiências saudáveis em viagem.

Projeta-se que esse mercado mais que dobrará de tamanho entre 2022 e 2027, saindo de US$ 651 bilhões em 2022 para cerca de US$ 1,4 trilhão em 2027, alcançando a marca de US$ 1 trilhão já em 2024.

Estas cifras refletem um comportamento de turismo de luxo baseado em experiências: pesquisas da Bain & Company também indicam que o mercado global de luxo alcançou € 1,5 trilhão em 2023, puxado pela recuperação dos gastos em experiências de viagem, que chegaram a níveis históricos após a retomada das interações sociais e do turismo. Em outras palavras, a demanda por viagens de bem-estar integra diretamente a economia do “luxo experiencial”, onde consumidores gastam mais por itinerários curados de saúde e relaxamento.

O turista de bem-estar costuma investir muito mais do que a média: embora represente apenas ~7,8% do total de viagens turísticas, ele responde por cerca de 18,7% dos gastos globais com turismo. Esse padrão reflete um ticket médio elevado – as viagens wellness são preparadas, muitas vezes com pacotes de tratamentos médicos, hospedagem em resorts de alto padrão e atividades imersivas.

Não surpreende que o mercado esteja bem acima dos níveis pré-pandemia: em 2023 o turismo de bem-estar já superou em cerca de 19% o valor de 2019. Ademais, o crescimento anual médio estimado para o período 2023–2027 é de 16,6%, quase o triplo da taxa média de crescimento do PIB global, o que reforça sua trajetória de boom contínuo.

Quanto ao perfil dos viajantes, o Global Wellness Institute evidencia que não se trata apenas de um público minoritário e bilionário. Pelo contrário, há dois grandes perfis de turistas de bem-estar: os “primários”, que planejam a viagem especificamente para saúde e recuperação, e os “secundários”, que incluem práticas de bem-estar em qualquer viagem de lazer ou negócios. Em ambos os casos, são pessoas que valorizam manter hábitos saudáveis mesmo fora de casa. Além disso, levantamentos da McKinsey mostram que 82% dos consumidores nos Estados Unidos já consideram o bem-estar uma prioridade (percentual similar ao de China e Reino Unido), com destaque para as gerações mais jovens (millennials e Gen Z). Essa amplitude demográfica indica que o turismo wellness alcança público bem mais amplo e diverso que o estereótipo dos spas elitizados.

O impulso do turismo de bem-estar tem raízes em motivações culturais e sociais profundas. A “busca por longevidade” tornou-se o novo imperativo: estudos da Condé Nast Traveller apontam que mais da metade dos viajantes estadunidenses prioriza férias que melhorem a saúde e aumentem a expectativa de vida. Termos como longevity (longevidade) ou healthspan viraram mantra de resorts e clínicas: a simples ideia de “viagem como fonte da juventude” domina o marketing do setor.

Não por acaso, hotéis e retiros de alto luxo já oferecem programas de longevidade de preços elevados – por exemplo, pacotes de quatro dias no Canyon Ranch ou Four Seasons chegam a custar dezenas de milhares de dólares combinando diagnósticos avançados, terapias IV (vitaminas/ozônio) e atividades wellness intensivas.

Canyon Ranch

Canyon Ranch. Foto: Facebook

Paralelamente, mudanças sociais influenciam o setor. Em meio a uma crescente sensação global de solidão e esgotamento, os viajantes buscam não apenas tratamentos clínicos isolados, mas experiências que promovam conexão comunitária e regeneração emocional.

Os relatos da imprensa especializada destacam que os programas de bem-estar agora incluem caminhadas em grupo pelas montanhas, refeições coletivas focadas em dietas ancestrais (mediterrânea no Mediterrâneo, ayurveda na Índia) e meditações guiadas em grupo.

Segundo a McKinsey, 88% dos turistas de luxo consideram aulas de fitness importantes na viagem e esperam cardápios saudáveis e tratamentos locais específicos – não apenas uma massagem isolada em um spa genérico. Existe ainda um viés por inovações científicas: consumidores mais informados exigem credibilidade e novidades baseadas em dados (teste genético, biohacks tecnológicos, terapias de neurofitness). Em suma, as motivações vão de encontro a um estilo de vida pós-moderno centrado na saúde integral, no contato com a natureza e na experiência compartilhada, em vez de um relaxamento puramente passivo.

Nos resorts e clínicas de luxo contemporâneos, cada viagem é curada para despertar o corpo e a mente. Em vez de focar apenas em spa pontual, muitos empreendimentos oferecem uma abordagem holística: aulas de yoga ao ar livre, piscinas bioenergizadas, cardápios orgânicos e tratamentos regionais autênticos (por exemplo, massagem ayurvédica na Índia ou banhos de areia vulcânica no Havaí).

Clínicas especializadas como a SHA Wellness Clinic (com unidades na Espanha e no México) exemplificam essa tendência: elas estruturam retiros sob medida para objetivos de saúde específicos (longevidade, desintoxicação, gerenciamento de peso) com infraestrutura de ponta – spa de 1,7 mil m², academia de 950 m², e até salas de diagnóstico médico avançado. Esses projetos unem tecnologia de saúde preventiva e elementos de spa tradicional, criando experiências inéditas, como sauna infravermelha com cromoterapia ou terapias naturistas com personal trainers integrados.

SHA Wellness Clinic, México

SHA Wellness Clinic. Foto: Facebook

No universo do luxo, vários destinos internacionais se destacam por oferecer experiências marcantes de bem-estar.

Por exemplo, o deserto de Dubai e o cânion norte-americano abrigam retiros de luxo all-inclusive, com ioga matinal diante de montanhas ícones e spa noturno às margens do oásis. Na América do Sul e Ásia tropical, há resorts em florestas orvalhadas, combinando cabanas de madeira com piscinas de água termal. Já os cânions do Sul da França e do Butão trazem retiros espirituais imersos em mosteiros antigos.

Um extenso relatório de tendências de viagens aponta que até mesmo “programas de fertilidade nos Himalaias” e “bootcamps cerebrais na Suíça” vêm atraindo turistas globais – prova de que o setor se expande nas direções mais diversas.

Bali e Costa Rica: ícones do turismo wellness tropical. Em Bali (Indonésia), a cultura milenar do ioga e do spa é aliada a resorts cinco-estrelas em meio à selva, onde a aromaterapia e rituais de purificação hindu complementam experiências de luxo. Na Costa Rica, o verde vibrante das florestas tropicais e as praias intocadas formam um santuário natural; muitos hotéis-boutique oferecem imersões em bem-estar que misturam alimentação orgânica, meditação e tratamentos inspirados nos indígenas locais. Essas imagens evocam o cenário de águas azuis e piscina infinita que caracterizam resorts tropicalmente integrados ao ambiente natural.

Suíça e Japão: epicentros do wellness de alta tecnologia e tradição. Na Suíça, centros como a Clinique La Prairie e o VIVAMAYR aproveitam a reputação do país em saúde e longevidade, combinando cuidados médicos avançados a spas termais alpinos. Os Alpes abrigam chalés de cura integrativa, onde dietas mediterrâneas e protocolos antienvelhecimento convivem com trilhas em altitude. Já no Japão, a cultura milenar se expressa nos onsens (banhos termais) e na filosofia ikigai, que molda retiros zen sofisticados. Resorts japoneses combinam ryokans tradicionais com spas de última geração, oferecendo desde banhos de floresta e banhos de areia quente até terapias shiatsu personalizadas. Esses destinos inspiram o imaginário do viajante wellness por aliar bem-estar à exclusividade cultural e estética.

VIVAMAYR

VIVAMAYR. Foto: Facebook

O turismo de bem-estar consolidou-se como um segmento premium do setor de viagens, conjugando conteúdo de saúde avançada a serviços de luxo. A atual trajetória, amparada por valores de mercado em franco crescimento, atesta que viajar “bem” passou a ser aspiracional e lucrativo. A sofisticada narrativa de branding deste nicho valoriza a transformação pessoal: as marcas de hotelaria e saúde investem em storytelling que integra tradição local, ciência da longevidade e design sensorial. Para estrategistas de luxo, é crucial entender que o turista wellness busca autenticidade (da dieta local ao artesanato regional) aliada a tecnologia de ponta.

Por fim, a conexão com tendências mais amplas – envelhecimento ativo, mindfulness, sustentabilidade – indica que o turismo wellness continuará a ocupar posição de destaque.

Com receitas acima da média do turismo convencional, este segmento tende a atrair mais investimentos em infraestrutura de alto padrão. Em resumo, o crescimento explosivo do turismo de bem-estar reflete mudanças culturais profundas (priorização da saúde integral, do equilíbrio emocional e das experiências significativas) e promete redesenhar o panorama do turismo de luxo nas próximas décadas.

Tamara Lorenzoni, Mestre em Gestão de Marcas de Luxo pela Domus Academy Milano

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