A recente morte de um montanhista na China, em setembro de 2025, que escorregou e caiu de uma altura de 200 metros após supostamente soltar sua corda de segurança para tirar uma selfie no perigoso Pico Naamã, reacende um debate urgente: a busca pela foto perfeita pode custar uma vida.

O incidente, capturado em vídeo por outros alpinistas, serve como um alerta contundente sobre os riscos inerentes à prática de selfies em locais extremos e a crescente negligência com a segurança.

Esse não é um caso isolado.

Globalmente, pontos turísticos e ambientes naturais já emitem alertas sobre os perigos das selfies, com muitos locais sendo considerados “destinos perigosos” para essa prática.

No Brasil, a Pedra da Gávea, cartão-postal do Rio de Janeiro, se tornou símbolo máximo desse fenômeno. A busca por fotos radicais para as redes sociais faz com que visitantes desafiem a lógica da segurança, colocando-se em situações de risco extremo em troca de curtidas e visualizações.

Pedra da Gávea, Rio de Janeiro

Pedra da Gávea. Foto: Alex Brito de Paiva/Pixabay

Só em 2023, sete das 17 mortes registradas em mirantes e trilhas cariocas ocorreram ali, quase sempre envolvendo tentativas de capturar imagens impressionantes em áreas sem proteção adequada. O cenário, que mistura beleza estonteante e o risco iminente de uma queda fatal, acende o alerta entre autoridades e especialistas em montanhismo.

“killfie”

O fenômeno da “selfie mortal” é tão recorrente que ganhou até nome próprio: “killfie”, uma fusão das palavras em inglês “selfie” e “matar”.

Um levantamento da Fundación iO, instituto especializado em medicina do viajante, aponta que nos últimos 15 anos mais de 500 pessoas perderam a vida ao tentar tirar uma selfie, um número que supera, inclusive, as mortes causadas por ataques de tubarão.

Para Aretha Duarte, montanhista experiente, guia de expedições e conhecida por ter se tornado a primeira mulher negra latino-americana a escalar o Everest, a situação exige uma profunda reflexão. “É assustador ver a banalização do risco em nome de uma imagem para as redes sociais. Na montanha, cada passo, cada decisão, é sobre segurança e respeito à vida. E soltar um equipamento essencial – mesmo que apenas para uma foto – pode ter consequências irreversíveis”, afirma Aretha, que já conduziu inúmeros grupos por algumas das montanhas mais desafiadoras do mundo.

Para ela, existiu negligência do montanhista e do grupo ao perceber que ele não estava ancorado pela cadeirinha de escalada na corda fixa que havia ali. “Na queda a gente também percebe que ele não está com o piqueta, que é o equipamento que lembra uma machadinha e nos permite recuperação de queda. É lamentável porque poderia ser evitado. E, também, faltou o cuidado coletivo do grupo e dos guias para um double check do procedimento dele. Somos todos seres humanos e podemos errar, então, é importante que um cuide do outro na montanha”.

Aretha enfatiza que o respeito às normas de segurança, o uso correto dos equipamentos e a consciência dos limites pessoais e do ambiente são inegociáveis. “Não importa a beleza do cenário ou a vontade de registrar o momento, a segurança deve ser sempre a prioridade máxima. Nenhuma foto vale uma vida. Antes de tudo, vem a integridade física, a nossa e a dos que estão conosco”, pondera. Ela ressalta ainda a importância de um planejamento rigoroso, da verificação constante dos equipamentos e da capacidade de avaliar e mitigar riscos.

Aretha Duarte durante expedição ao Everest

Aretha Duarte durante expedição ao Everest.

“A montanha nos ensina humildade e a reconhecer nossa vulnerabilidade diante da natureza. Ela não perdoa erros de julgamento ou momentos de descuido. Refletir sobre esse trágico acidente é entender que em qualquer trilha, em qualquer expedição, seja um pequeno passeio ou uma escalada de alta altitude, a segurança não é um detalhe, é a base de tudo”, conclui Aretha Duarte.

Com apoio Fibra Comunicação

Comentários

Leave A Comment