O Japão vive um verdadeiro boom do turismo de luxo no verão de 2025, impulsionado por uma combinação única de fatores econômicos e culturais. Após anos de restrições pandêmicas, viajantes do mundo todo – inclusive um número crescente de brasileiros – voltaram os olhos ao Japão em busca de experiências exclusivas. A moeda japonesa desvalorizada, a reabertura pós-covid, a retomada de cruzeiros e eventos de grande porte como a Expo 2025 em Osaka, criaram condições ideais para que o país se torne um dos destinos premium mais cobiçados deste verão. Com hotéis cinco estrelas lotados, cruzeiros de alto padrão zarpando novamente e ofertas gastronômicas e culturais sob medida, o Japão consolida-se como referência de sofisticação na Ásia. A seguir, exploramos as principais tendências desse crescimento, com dados concretos de 2025 e dicas de experiências imperdíveis.

Após reabrir totalmente suas fronteiras em 2023, o Japão registrou números recordes de visitantes internacionais em 2024, ultrapassando 36,9 milhões de turistas – 16% acima do patamar pré-pandemia de 2019. Esse ritmo acelerou ainda mais em 2025: somente no primeiro trimestre, mais de 10,5 milhões de estrangeiros visitaram o país. Trata-se do avanço mais rápido já registrado, alcançando a marca de 10 milhões de visitantes já em março, graças a um “boom” turístico sem precedentes impulsionado pelo iene fraco. A cotação do iene encontra-se em mínimas históricas frente ao dólar e outras moedas, tornando o Japão mais acessível para turistas com moedas fortes. Em 2024, quando o iene atingiu seu nível mais baixo em três décadas, Tóquio chegou a se tornar a cidade mais visitada do mundo, ultrapassando Bangkok, que liderava esse ranking por quase dez anos. Viajantes de países como Singapura aproveitaram a valorização de cerca de 40% de suas moedas frente ao iene para fazer compras e turismo de luxo no Japão.

Esse cenário cambial favorável se traduz em gastos elevados no turismo. Em 2024, os visitantes estrangeiros injetaram ¥ 8,1 trilhões na economia japonesa (aproximadamente US$ 53 bilhões), um recorde que tornou o turismo a segunda maior “exportação” do país, atrás apenas da indústria automobilística. No primeiro trimestre de 2025, os gastos dos turistas já somavam ¥ 2,27 trilhões (cerca de US$ 16 bilhões), 28% acima do mesmo período do ano anterior. O governo japonês tem como meta elevar ainda mais o consumo per capita dos viajantes de luxo: o plano oficial para 2023-2025 visa atingir ¥ 200 mil por turista inbound (cerca de US$ 1,5 mil), o que representaria um aumento de ~25% em relação a 2019. Para isso, as autoridades e a agência nacional de turismo (JNTO) apostam em atrair visitantes de alto padrão e em incentivá-los a explorar regiões além dos eixos tradicionais, prolongando sua estadia pelo país. A estabilidade política e sanitária do Japão no pós-pandemia, aliada à hospitalidade e segurança do país, também reforça a confiança de viajantes exigentes em escolher o destino para férias requintadas.

Luxo na rede hoteleira

Com a volta em massa dos turistas, a rede hoteleira de luxo japonesa expandiu-se e se renovou para o verão de 2025. Grandes metrópoles como Tóquio e Osaka receberam novos empreendimentos cinco estrelas que elevaram o padrão de hospedagem. Em Tóquio, destaca-se a estreia do Fairmont Tokyo, primeiro hotel da rede Fairmont no Japão, com inauguração marcada para 1º de julho de 2025. Localizado na área de Shibaura, com 217 quartos de design elegante e vistas panorâmicas da Baía de Tóquio, o Fairmont chega com restaurantes sofisticados, spa de alto nível e serviço “hotel dentro do hotel” Fairmont Gold, mirando diretamente o público premium.

Signature Twin, Fairmont Tokyo

Signature Twin, Fairmont Tokyo.

Já na região de Kansai, Osaka ganhou seu aguardado Waldorf Astoria – o primeiro Waldorf Astoria Hotels & Resorts do país, aberto em abril de 2025. Situado nos andares superiores de um novo complexo próximo à estação de Osaka, o Waldorf oferece 252 quartos luxuosos (a maioria com pelo menos 50 m²) decorados com elementos de design japonês e art déco, além de restaurantes com vista panorâmica para a cidade. A abertura foi estrategicamente planejada às vésperas da Expo 2025, que começou em 13 de abril, garantindo hospedagem de alto padrão para visitantes ilustres do evento.

Presidential Suite, Waldorf Astoria Osaka

Presidential Suite, Waldorf Astoria Osaka.

Outras marcas internacionais e locais também reforçaram a oferta de luxo: a capital japonesa contou recentemente com a chegada do JW Marriott Hotel Tokyo e do Janu Tokyo (novo hotel de bem-estar da rede Aman inaugurado na torre Azabudai Hills), enquanto Hokkaido viu a expansão do portfólio premium com o InterContinental Sapporo e resorts alpinos exclusivos. Essa expansão hoteleira acompanha a alta na demanda – tanto de estrangeiros quanto de turistas domésticos abonados – por experiências de hospedagem diferenciadas. A ocupação em hotéis cinco estrelas de Tóquio e Kyoto voltou a atingir níveis próximos do pico pré-2020, e muitos estabelecimentos oferecem pacotes especiais de verão focados no público de luxo, como suítes com mordomo, jantares privativos e tours personalizados.

Quarto Premium, InterContinental Sapporo

Quarto Premium, InterContinental Sapporo.

Paralelamente, o consumo sofisticado cresce atrelado a essa retomada. Bairros famosos pelo luxo e compras, como Ginza em Tóquio, registram vendas recordes. Grandes lojas de departamento tradicional – centenárias – reportaram saltos impressionantes: a rede Isetan Mitsukoshi, por exemplo, teve um aumento de 114,7% nas vendas ano contra ano em suas lojas de Tóquio, atribuído em parte ao gasto de turistas estrangeiros aproveitando o iene barato. Joalherias, moda e galerias de arte também surfam essa onda; muitos visitantes asiáticos e ocidentais estão desembarcando no Japão dispostos a fazer compras de alto valor – de relógios suíços a kimonos de seda artesanais – a preços que, convertidos, tornaram-se mais favoráveis que em seus países de origem. Essa “febre de compras” é visível especialmente entre viajantes da Ásia: turistas de Singapura, por exemplo, gastaram tanto no varejo de luxo japonês que seu país registrou uma saída recorde de turistas para o Japão no ano passado.

Para atender ao gosto refinado desse público, os destinos japoneses têm investido em experiências exclusivas de gastronomia e cultura. Hotéis de luxo agora oferecem a seus hóspedes vivências sob medida – de cerimônias do chá privadas conduzidas por mestres em Kyoto a workshops de artesanato tradicional com artesãos renomados.

Em Tóquio, restaurantes estrelados (alguns na lista dos melhores do mundo) voltaram a ter listas de espera disputadas por viajantes gourmet em busca do autêntico kaiseki ou do sushi perfeito ao estilo Edomae. O setor de alimentação de alto padrão até criou novos recordes de faturamento impulsionado pelos estrangeiros; segundo dados do governo, os gastos dos visitantes com comidas, bebidas e compras tax free em 2024 cresceram muito acima da média, refletindo essa procura por experiências gastronômicas e consumos sofisticados. Em síntese, o verão de 2025 encontra o Japão preparado para encantar os turistas mais exigentes, unindo tradição e inovação em produtos e serviços de luxo.

Luxo também nos cruzeiros

Outra tendência notável é a volta dos cruzeiros de luxo aos portos japoneses, complementando as viagens terrestres. Após a paralisação quase total das operações marítimas durante a pandemia – simbolizada pelo famoso caso do Diamond Princess em quarentena em 2020 – o setor de cruzeiros asiático ressurgiu com força. Em 2024, o mercado japonês de cruzeiros cresceu 14,2% em relação ao ano anterior, alcançando 224,1 mil passageiros domésticos. Mais impressionante, o número de visitantes estrangeiros que entraram no Japão por navio quadruplicou, chegando a 1,4 milhão em 2024 – o equivalente a 60% do recorde histórico de 2017. Esses números mostram o apetite reprimido por viagens marítimas requintadas, agora saciado por novos investimentos e roteiros especiais.

As grandes companhias japonesas, como NYK Line e Mitsui O.S.K. Lines (MOL), aproveitaram a ocasião para renovar e ampliar suas frotas de cruzeiros boutique.

Em julho de 2025, foi lançada a joia da coroa dos cruzeiros japoneses: o navio Asuka III, da NYK Cruises, um transatlântico de luxo com 230 metros de comprimento e todas as 381 cabines equipadas com varanda privativa para vistas exclusivas do mar. A viagem inaugural do Asuka III, de 20 a 26 de julho, partirá de Yokohama rumo aos portos pitorescos de Hakodate e Otaru, em Hokkaido – um itinerário de verão que une clima ameno e paisagens naturais exuberantes do norte japonês. O nível da experiência a bordo fica claro no preço: as tarifas por passageiro variam de ¥ 984 mil a ¥ 4,8 milhões (US$ 6,8 mil a US$ 33 mil), dependendo da suíte. Esse patamar altíssimo – quase 5 milhões de ienes por pessoa nas acomodações mais prestigiadas – ilustra como os cruzeiros tornaram-se verdadeiros produtos de luxo no Japão, atendendo a uma clientela disposta a pagar pela exclusividade em alto-mar.

Asuka III

Suíte Asuka III.

A bordo desses navios, o viajante encontra um mundo de conforto e bem-estar: piscinas panorâmicas, spas com tratamentos orientais, restaurantes comandados por chefs premiados e entretenimento que vai de shows artísticos a aulas culturais.

Na MOL Cruises, por exemplo, o recém-incorporado Mitsui Ocean Fuji (em operação desde o fim de 2024) oferece experiências dignas de um resort cinco estrelas, com restaurantes refinados, bares de coquetéis e até suítes temáticas decoradas como verdadeiras galerias de arte japonesa.

MOL Cruises, Japão

Suíte com vista para o Oceano no MOL Cruises.

Não por acaso, a resposta do público tem sido extremamente positiva – muitos cruzeiros de verão estão com lotação esgotada, impulsionados pela wanderlust reprimida e pela busca por viagens seguras em ambientes controlados.

Trens

Além dos cruzeiros marítimos, o segmento de bem-estar e luxo em transporte inclui também os famosos trens turísticos de alta classe. O Japão, que já é conhecido por seus trens-bala eficientes, investiu na última década em trens luxuosos onde o trajeto é o destino.

Um exemplo emblemático é o Seven Stars em Kyushu, um trem-cruzeiro que percorre a ilha de Kyushu em roteiros de vários dias. Com apenas sete vagões e 14 suítes no total, decoradas em madeira e tecidos tradicionais, o Seven Stars proporciona uma viagem intimista para poucos sortudos, combinando alta gastronomia regional a bordo com paradas para tours culturais exclusivíssimos. Uma jornada de quatro dias nesse trem pode custar dezenas de milhares de dólares, e ainda assim há lista de espera – prova de que experiências de transporte luxuoso estão em alta demanda. Essas iniciativas estão alinhadas ao esforço japonês de oferecer bem-estar, conforto e aventura integrados: seja navegando pelo Pacífico ou cruzando montanhas de trem, o importante é que o turista de alto poder aquisitivo encontre serviços impecáveis e memórias únicas.

Seven Stars, Japão

Deluxe Suites, Seven Stars.

Um dos fatores que facilitou o aumento de turistas brasileiros ao Japão foi a recente isenção de visto: desde setembro de 2023, brasileiros com passaporte eletrônico podem entrar no Japão sem visto para estadias de até 90 dias, agilizando viagens de lazer. Como resultado, “o interesse explodiu” entre viajantes brasileiros, segundo analistas do setor, e 2024 já viu um salto significativo no número de visitantes do Brasil ao Japão. Para atender essa demanda, a companhia aérea ANA retomou voos diretos charter entre Tóquio e São Paulo em datas especiais, e entidades como a Japan House São Paulo (ligada à JNTO), passaram a oferecer orientação gratuita nos finais de semana para brasileiros planejando a viagem, desde dicas de roteiros até etiqueta cultural.

Visando desconcentrar o fluxo turístico e apresentar novos destinos de luxo além do trio Tóquio-Osaka-Kyoto, o governo japonês lançou iniciativas ousadas. Uma delas é o plano de desenvolver resorts sofisticados em todas os 34 parques nacionais do país até 2031, combinando a natureza intocada com hospedagens premium. A ideia, defendida pelo primeiro-ministro Fumio Kishida, é aproveitar o câmbio favorável – “o iene em baixa histórica versus moedas estrangeiras” – para atrair viajantes dispostos a pagar por conforto cinco estrelas mesmo em áreas remotas.

Por exemplo, em regiões como Hokkaido (Norte gelado) ou Okinawa (ilhas tropicais do Sul), projetos de eco resorts de luxo estão em andamento, oferecendo vilas privativas com onsen (termal) ao ar livre, gastronomia orgânica do local e experiências exclusivas como mergulho em recifes preservados ou trilhas com guia particular.

Locais antes pouco explorados pelo turismo internacional, como a ilha de Yakushima em Kagoshima (Patrimônio Natural da Unesco) ou os Alpes Japoneses em Nagano, começam a despontar como destinos emergentes de alto padrão graças a esses investimentos. O viajante abastado de 2025 busca exatamente esse equilíbrio: depois de visitar as grandes cidades e seus hotéis icônicos, muitos estão prolongando a estadia para conhecer o Japão mais autêntico e intocado, porém sem renunciar ao luxo.

Essa estratégia também contribui para diluir problemas de over-tourism em pontos já saturados. Kyoto, por exemplo, continua sendo um polo do turismo cultural de luxo – com seus ryokans tradicionais e experiências únicas com gueixas e mestres de sushi – mas as autoridades locais e empresários do setor têm promovido alternativas próximas, como as cidades de Kanazawa e Toyama (ricas em cultura samurai e artesanato), ou destinos rurais como Kaga e Kinosaki Onsen, onde ryokans de alto nível proporcionam tranquilidade longe das multidões.

Para o viajante de luxo global (incluindo o brasileiro), isso significa um leque mais amplo de escolhas: do design arrojado de um arranha-céu em Tóquio às florestas de cedro milenar de Yakushima, o Japão em 2025 oferece experiências sob medida, sempre com o selo de qualidade e atenção aos detalhes pelo qual o país é reconhecido.

Com um mix único de tradição e modernidade, o Japão oferece desde a energia futurista de Tóquio (agora mais acessível graças ao iene fraco) até o silêncio contemplativo de um onsen nas montanhas, sempre com serviço impecável. Eventos como a Expo Osaka servem de vitrine internacional, enquanto iniciativas para desenvolver resorts em áreas remotas mostram um compromisso em diversificar as rotas do luxo. E o público brasileiro, cada vez mais presente nesse nicho, encontra no Japão um destino seguro, fascinante e agora facilitado pela isenção de visto – o que torna realidade aquele sonho de desfrutar do melhor da terra do sol nascente em grande estilo.

Se 2024 foi o ano da retomada, 2025 promete consolidar o Japão como hub indispensável do turismo premium, provando que a união de cultura milenar e excelência contemporânea continua imbatível em encantar quem busca experiências verdadeiramente inesquecíveis.

Tamara Lorenzoni, Mestre em Gestão de Marcas de Luxo pela Domus Academy Milano

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