A Galeria Praça da Pina Contemporânea, na Pinacoteca de São Paulo, abriga a exposição “Hyundai Translocal Series: Via Satélite – Diálogos com Nam June Paik – Charlotte Moorman e Vivian Caccuri”.
A mostra celebra um dos nomes mais importantes da arte contemporânea mundial na segunda metade do século XX, o sul-coreano Nam June Paik (1932-2006), considerado o pai da videoarte, pioneiro no uso da televisão e do vídeo como meio artístico e figura central na fusão entre arte, tecnologia e comunicação de massa. Nas transmissões via satélite que fazia nos anos 1980, conectou artistas ao vivo em fusos horários distantes, antecipando a instantaneidade global das redes sociais.
A exposição coloca Paik em diálogo com duas artistas de peso: a americana Charlotte Moorman (1933-1991), violoncelista e artista performática que colaborou com Paik em diversos trabalhos durante décadas, e a brasileira Vivian Caccuri (1986), consagrada por investigar o som em suas instalações e performances como meio para reorganizar a percepção e tensionar experiências cotidianas.
A exibição, coorganizada com o Nam June Paik Art Center, de Yongin, da Coreia do Sul, faz parte do projeto Hyundai Translocal Series, iniciativa da Hyundai Motor lançada em 2025 que fomenta colaborações entre instituições de arte da Coreia do Sul e de todo o mundo. Esta é a primeira de duas exposições que a Pinacoteca dedicará ao projeto. Em 28 de novembro, abre a segunda mostra, na Grande Galeria da mesma Pina Contemporânea, colocando obras emblemáticas de Paik em diálogo com trabalhos das artistas biarritzzz (Fortaleza, 1994), Christine Sun Kim (Orange County, 1980), Jane Jin Kaisen (Jeju, 1980) e Vivian Caccuri (São Paulo, 1986).
Na sequência da primeira apresentação na Pinacoteca, o Nam June Paik Art Center inaugura a exposição “Hyundai Translocal Series: Via Satellite – Moon, Echo, Mosquitoes, and Memes” em seu edifício em Yongin, em 5 de novembro.
Com curadoria de Yoonseo Kim, Kwonjin Cho, Ana Maria Maia e Ana Paula Lopes, a exposição sul-coreana difere da edição brasileira: enquanto esta parte das obras históricas de Paik, aquela se concentra em projetos recém-comissionados e em obras já existentes das quatro artistas convidadas, estabelecendo pontes entre suas práticas e seus contextos de vida e trabalho.
“Estamos muito entusiasmados por fazer parte da Hyundai Translocal Series, profundamente comprometidos com a arte e com os diálogos transnacionais entre museus, criadores e públicos”, afirma Jochen Volz, diretor-geral da Pinacoteca, para completar: “Nossos museus, localizados em cidades em lados opostos do mundo e agora unidos pelo espírito de Nam June Paik, que imaginou encontros capazes de transcender o tempo e o espaço por meio da combinação entre tecnologia e arte, querem celebrar conjuntamente o legado de Paik à luz das produções contemporâneas de artistas de uma nova geração”.
Um artista visionário
Nam June Paik consolidou-se como um pensador visionário sobre comunicação de massa muito antes de a tecnologia alcançar as possibilidades que ele já imaginava.
Em 1974, cunhou o termo “electronic superhighway” (“superestrada eletrônica”) para falar de redes globais de comunicação instantânea via satélite, duas décadas antes da popularização da internet, e defendeu a criação de um “Video Common Market” que permitisse a livre circulação de conteúdo televisivo entre países – uma televisão pensada não como meio de mão única, mas como ferramenta de participação e diálogo real entre culturas.
Essa visão se concretizou em projetos históricos como “Good Morning, Mr. Orwell” (1984), uma performance mundial ao vivo via satélite pioneira, no Ano-Novo daquele ano, e “Wrap Around the World” (1988), transmissão que conectou simultaneamente diversos países, incluindo o Brasil, durante as Olimpíadas de Seul. Ao longo de mais de quatro décadas de produção, Paik também se dedicou a repensar a relação entre corpo, máquina e afeto – investigando como a tecnologia poderia ser “humanizada” em vez de fria ou distante.
O legado de Paik consolidou a videoarte como uma das linguagens fundamentais da arte do século XX, transformando a televisão de um receptor passivo em uma ferramenta interativa de criação e reflexão crítica. Seus trabalhos integrando tecnologia, escultura, robótica e filosofia materializaram seu projeto de humanizar os meios eletrônicos, estimulando o espectador a se tornar um participante ativo da cultura de mídia, além de antecipar dinâmicas de rede e circulação global de informações que definem a sociedade dos anos 2010 e 2020. Sua obra pavimentou o caminho para a new media art, instalações imersivas, videoarte contemporânea e a estética da hiperconexão.
Ana Maria Maia, curadora-chefe da Pinacoteca, diz que Paik é um artista central para a contemporaneidade, pelo modo como conjugou experimentalismo e desejo de atuar na realidade de um mundo em pleno processo de globalização na segunda metade do século XX. Tendo passado a infância na Coreia, estudado no Japão e na Alemanha, morado grande parte da vida nos EUA e cultivado relações no Brasil, responsáveis por torná-lo uma grande influência para a cena local, ele está dentre os artistas cuja obra parte de uma condição internacional. Diante das mudanças drásticas de ordem geopolítica e relativas à produção em arte, partimos dele como um precursor e ponto de partida para discussões que permanecem abertas na contemporaneidade. Quais as relações que estabelecemos entre o local e o global? Como a arte nos ajuda a pensar e traduzir culturas distantes e buscar relações sensíveis com as máquinas e a natureza?”.
“Ao olhar para a tecnologia, Paik também buscou humanizá-la, explorando a dimensão íntima dos meios de comunicação e deslocando para o espaço público aquilo que antes pertencia ao ambiente doméstico. Ele também provocou um abalo nas relações entre arte, tecnologia e diferentes campos do conhecimento, aproximando artistas, público e educação. Sua trajetória atravessou culturas e línguas – coreano, japonês, chinês, alemão e inglês – e foi marcada pela constante preocupação sobre ser compreendido. Essa experiência de atravessar fronteiras também nos leva a pensar sobre a comunicação e a globalização, e sobre como barreiras sociais e raciais ainda podem limitar esses deslocamentos. Seu radicalismo nasce, em parte, da experiência com a música clássica e dodecafônica, da manipulação do tempo e da subversão de suas estruturas. No encontro com o Grupo Fluxus, Charlotte Moorman e outros colaboradores, além de interlocutores de diferentes áreas, Paik ampliou as possibilidades do acaso, do descontrole e da experimentação como elementos fundamentais de sua prática”, explica Ana Paula Lopes, curadora da Pinacoteca.
Destaques
Uma das obras exibidas na Galeria Praça é a famosa TV Cello (1971), uma escultura-vídeo de Nam June Paik concebida para ser tocada por Charlotte Moorman.
A obra reúne três televisores de diferentes dimensões, cordas, voluta, cravelhas, fios e circuitos eletrônicos, integrados ao instrumento e protegidos por uma película de acrílico transparente que funciona como uma espécie de pele. A cada movimento de Moorman sobre as cordas, a escultura emite sons eletrônicos e produz variações que se refletem na própria exibição das imagens nos monitores. Em alguns momentos, a artista dedilha as cordas; em outros, bate na caixa de acrílico.

Escultura-vídeo de Nam June Paik.
A peça estreou como Concerto for TV Cello and Videotapes na Galeria Bonino, em Nova York, e foi reencenada por Moorman em diversas ocasiões, incluindo apresentações célebres em 1982, no Whitney Museum of American Art, em Nova York, e, mais tarde naquele ano, na inauguração da retrospectiva de Paik no Museu de Arte Contemporânea de Chicago. Paik produziu diversas versões da obra ao longo da vida – a exibida agora na Pinacoteca é a de 2002, do acervo do Nam June Paik Art Center. TV Cello funciona como um amálgama de corpo, instrumento musical e eletrônica, que desafia a fronteira entre corpo e máquina. A integração do corpo do performer com as telas de vídeo age como uma extensão protética da corporeidade, unindo a música ao vivo à manipulação das imagens em tempo real. Assim, os artistas manipulam o tempo e deslocam as fronteiras de um instrumento cuja forma permanecia praticamente inalterada desde o século XVII, como declarou Moorman.
Já Vivian Caccuri cria uma obra inédita para a exposição da Pina, Medusa e Clepsidra (2026), de modo a dialogar com Paik e Moorman. Caccuri explora o som como elemento capaz de produzir experiências temporais que escapam às formas convencionais de percepção e ampliam as possibilidades de interação entre os sentidos e o corpo. A instalação sonora transforma em matéria e em som o fluxo sanguíneo; uma matéria que, embora faça parte de nossa experiência corporal, permanece inaudível, exceto, segundo a filosofia budista, em estados elevados de meditação. Por meio do ultrassom Doppler, Caccuri capta esse movimento invisível e o converte em matéria sonora e espacial. Estruturas de concreto de diferentes tamanhos, construídas a partir de diferentes corpos e pigmentadas em tons sanguíneos, articulam-se a fios que atravessam o teto, sugerindo movimentos e correntes.

Vivian Cacurri, Studio Hyundai Translocal Via Satellite.
O título faz referência à clepsidra, antigo relógio de água utilizado para medir o tempo, aproximando a circulação do sangue de uma medida temporal que, embora não possa ser ouvida, é corporalmente sentida. Ao articular corpo, tecnologia e som, a artista propõe uma experiência do tempo em sua dimensão abstrata, que se manifesta simultaneamente de forma corporal e imagética.
Outra obra exposta na Galeria Praça é o vídeo Transmissão Via Satélite da Documenta 6 (1977), feito por Charlotte Moorman, Douglas Davis, Joseph Beuys e Nam June Paik. Na sexta edição da Documenta de Kassel, realizada em 1977 sob curadoria de Manfred Schneckenburger, a arte expandiu seus limites ao incorporar performance, videoarte, novas mídias e meios de comunicação. Em parceria com a televisão pública alemã, a exposição abrigou uma das primeiras transmissões internacionais via satélite, alcançando 25 países. Nesse contexto, Moorman e Paik apresentaram ao vivo performances inspiradas no Fluxus, retomando trabalhos como TV Bra (1969) e TV Cello (1971). Paik tensionava a relação entre corpo, tecnologia e ação, enquanto Joseph Beuys elaborava um discurso performativo sobre a transformação social pela arte. De Caracas, Douglas Davis apresentou The Last Nine Minutes, aproximando tempo e distância. A transmissão conectava diferentes linguagens e colocava em pauta circulação de imagens, fronteiras e possibilidades de conexão global em meio à Guerra Fria.
TURISMO: Parque Geminiani Momesso é um museu a céu aberto no Norte do Paraná
Os artistas
Nam June Paik (Seul, Coreia do Sul, 1932 – Miami, Estados Unidos, 2006) foi um artista visual, considerado o fundador da videoarte. Estudou na Universidade de Tóquio antes de continuar seus estudos em história da arte e musicologia na Alemanha, onde conheceu John Cage e passou a integrar o movimento Fluxus. Em 1963, na mostra “Exposition of Music-Electronic Television”, em Wuppertal, usou televisores manipulados como meio artístico pela primeira vez. Mudou-se para Nova York em 1964, onde iniciou sua parceria histórica com a violoncelista Charlotte Moorman e, com o engenheiro Shuya Abe, criou o Paik-Abe Video Synthesizer (1969). Autor de obras como TV Buddha, TV Garden e Global Groove, também organizou transmissões pioneiras via satélite, como Good Morning, Mr. Orwell (1984). Recebeu o Leão de Ouro da Bienal de Veneza (1993) e teve retrospectivas no Whitney Museum (1982) e no Guggenheim (2000). Esteve no Brasil em 1975, na 13ª Bienal de São Paulo, e voltou a expor no país em diversas ocasiões, incluindo uma retrospectiva no Videobrasil de 1996.
Madeline Charlotte Moorman (Little Rock, Estados Unidos, 1933 – Nova York, Estados Unidos, 1991) foi violoncelista e artista performática norte-americana, conhecida como “Joana d’Arc da Nova Música”. Figura central da vanguarda nova-iorquina, fundou o Annual New York Avant-Garde Festival. Após atuar na Orquestra Sinfônica Americana, dedicou-se à música experimental e à performance. Em 1964, conheceu Nam June Paik, com quem estabeleceu uma parceria fundamental, criando obras que articulavam música, corpo, vídeo e tecnologia, como TV Bra for Living Sculpture (1969) e TV Cello (1971). Em 1967, durante a apresentação de Opera Sextronique, de Paik, no Film-Makers’ Cinematheque, em Nova York, Moorman foi retirada violentamente do palco pela polícia e presa por atentado ao pudor, tornando-se conhecida como Topless Cellist. O episódio tornou-se emblemático por tensionar as relações entre arte, corpo, sexualidade e censura. Ao longo de sua trajetória, colaborou com artistas como Yoko Ono, John Cage, Joseph Beuys, Carolee Schneemann e Wolf Vostell. Diagnosticada com câncer de mama na década de 1970, continuou a se apresentar até sua morte, em 1991, aos 57 anos.
Vivian Caccuri (São Paulo, 1986) é uma artista visual brasileira que vive e trabalha no Rio de Janeiro, e que usa o som como principal meio de trabalho, investigando os condicionamentos históricos e sociais que separam “música” de “ruído”. Formada em Artes Visuais pela Unesp, com mestrado pela UFRJ e pesquisa na Universidade de Princeton, é autora do livro “O Que Faço É Música” (2012), vencedor do Prêmio Funarte de Produção Crítica em Música. Destaca-se por sua série de “Soundsystems” – reconstruções de caixas de som de baile funk em materiais como vidro espelhado (Odebrecht SoundSystem, 2016) e rapadura de açúcar (Sesmaria Soundsystem, 2019) -, além de uma extensa pesquisa sobre o zumbido do mosquito como tema sonoro e histórico. Participou da 58ª Bienal de Veneza (2019), da 32ª Bienal de São Paulo (2016) e recebeu o Prêmio Sergio Motta de Arte e Tecnologia (2011). Suas obras integram o acervo da Pinacoteca de São Paulo e de outras instituições, como Masp e MAR.
A mostra tem parceria da Hyundai Motor e patrocínio do Banco Itaú e Bvlgari.
Serviço
Pinacoteca de São Paulo
Hyundai Translocal Series: Via Satélite – Diálogos com Nam June Paik – Charlotte Moorman e Vivian Caccuri
Até 14 de março de 2027
Edifício Pina Contemporânea | Galeria Praça – Térreo – Av. Tiradentes, 273
De quarta a segunda, das 10h às 18h (entrada até 17h)
Classificação indicativa: 12 anos
R$ 40 (inteira) e R$ 20 (meia-entrada), ingresso único com acesso aos três edifícios – válido somente para o dia marcado no ingresso
Gratuito aos sábados
2º Domingo do mês – entrada gratuita – Gratuidade Mantenedora B3
Com informações da Assessoria de Imprensa da Pinacoteca de São Paulo






