Por décadas, o atlas da elite global foi desenhado a partir da posse: casas em múltiplos continentes, garagens com supercarros e calendários marcados por temporadas fixas em destinos tradicionais. Mas essa cartografia está mudando. Os ultra ricos continuam viajando mais do que nunca, mas agora viajam diferente. Segundo o The Economist e relatórios como o Knight Frank Wealth Report 2024, UHNWIs (Indivíduo de Patrimônio Líquido Ultra Elevado) estão se desfazendo de ativos de luxo com baixa liquidez e alto custo de manutenção. O fenômeno não representa retração; representa uma nova inteligência de estilo de vida. No topo da pirâmide, o que se busca não é mais acumular, e sim circular.

A viagem como centro da vida — não como pausa

Ao contrário das gerações anteriores, para quem viajar era um “intervalo”, a elite atual integra deslocamento à rotina.

Profissionais globais, investidores, famílias multigeográficas e nômades de altíssima renda transformaram o mundo em um ecossistema modular de estadias, ritmos e refúgios. Essa lógica inaugura um comportamento que cresce em silêncio: o viajante que não quer carregar o peso de um patrimônio imobilizado. A posse se tornou uma espécie de “ruído logístico”. A viagem, por outro lado, oferece leveza, anonimato, tempo (que se tornou o ativo mais escasso).

Memberships e a era da hospitalidade

Um dos sinais mais evidentes dessa mudança é a substituição da propriedade pela assinatura: clubes de hospitalidade global, como Soho House, Aman Club e Exclusive Resorts, oferecem acesso a uma rede de casas e serviços sem o peso da manutenção; a aviação privada modular, via NetJets ou Flexjet, troca o jato próprio por blocos de horas com a mesma liberdade e menor carga operacional; e os yacht clubs privados permitem usar superyachts em diferentes destinos sem a responsabilidade constante de uma tripulação. A elite não renuncia ao conforto, apenas da gestão que o acompanha.

A estética da discrição como linguagem de viagem

Muito antes de ganhar atenção na mídia, a discrição já era um traço central do viajante de altíssima renda, que sempre priorizou serviços sem ruído, trajetos fora do óbvio, privacidade elevada e experiências que preservam o tempo como valor absoluto; hoje, essa sensibilidade se intensifica, deslocando o interesse das grandes cenografias para propriedades resguardadas como as do Clara Resort ou do Six Senses, para programas de bem-estar profundo como Clinique La Prairie ou Lanserhof, onde o corpo é tratado como ativo de performance, e para estadias longas em lugares onde a vida encontra outro ritmo — Cotswolds, Niseko, Comporta, Santa Teresa, Puglia ou Trancoso fora de temporada.

Luxo

Mobilidade de alta renda: um novo mapa mental

Ao abandonar propriedades fixas, UHNWIs estão, na verdade, comprando autonomia.

Eles querem:

1.Ritmo próprio

Conectar-se ao planeta por capítulos, não por compromissos permanentes. Passar três meses no Japão, dois no Sul da França e seguir para a Costa Rica sem se preocupar com a casa vazia em Nova York.

2.Identidade modular

Ser global sem ser deslocado. Ter anfitriões em cada país, experiências alinhadas ao humor e não à obrigatoriedade do calendário.

3.Acesso ao extraordinário, não ao magnânimo

Trocar megaestruturas por contextos capazes de gerar presença, respiro e profundidade.

E o Brasil? O país no radar dos viajantes de nova geração

A elite brasileira também se reorganiza: o Credit Suisse Global Wealth Report aponta o crescimento dos UHNWIs locais, mas sua relação com a mobilidade tornou-se mais estratégica, refletida na busca por refúgios discretos e bem conectados no país (como Florianópolis, Piauí, Maraú e a Serra da Mantiqueira), no movimento de travel as lifestyle, com estadias mais longas e menor dependência de propriedades fixas, e no avanço dos concierges de viagem de alta complexidade, que atuam como curadores de ritmo em vez de simples agentes de reserva; assim, o Brasil se torna não apenas um destino, mas uma base emocional dessa nova mobilidade de elite.

A era do viajante que coleciona capítulos, não imóveis, revela uma elite contemporânea que faz uma escolha essencialmente filosófica: trocar o peso da posse pela leveza da circulação, deslocando o valor do objeto para o desdobramento, do ativo físico para o estado de presença que uma viagem bem construída proporciona; viajar deixa de ser apenas atravessar distâncias para tornar-se a travessia de diferentes estados de vida, e, para quem pode tudo, o verdadeiro privilégio volta a ser o mais simples de todos: não carregar nada além do necessário.

Tamara Lorenzoni, Mestre em Gestão de Marcas de Luxo pela Domus Academy Milano

As imagens da coluna foram geradas por Inteligência Artificial

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