Albânia?!?! Foi com misto de surpresa, estranheza e com certeza alguns pensando “o que ele vai fazer lá?”, que amigos perguntavam sobre minha opção de viagem. Resumindo foram três: 1. história; 2. vários vídeos que vi com imagens de praias e 3. estava a pouco mais de uma hora de voo de Antália, na Turquia.
Existe, também, outra explicação: quando Sonia e eu começamos a planejar a viagem para ir visitar Renata, irmã dela que mora em Antália, na Turquia, decidimos que o voo de cerca de 13 horas entre São Paulo e Istambul era muita coisa. Então, decidimos fatiar a viagem e, quando você toma uma decisão dessas, você vai acrescentando coisas. A primeira parada foi Barcelona, depois seguimos para Istambul (onde encontramos Renata), seguimos para Capadócia e Antália. Aí veio uma dificuldade: para ir a Madri a partir de Antália, teríamos que voltar a Istambul e fazer um voo com conexão. A alternativa foi incluir a Albânia no roteiro (o voo seria de 4 horas até Madri).
E o que que esperava encontrar na Albânia? Os vídeos e matérias sobre turismo no país geraram a expectativa de encontrar belas paisagens. Mas li, também, que o país tem uma das piores economias da Europa, o que me fez imaginar que conforto não estaria no “cardápio” de seis dias no país. Mas a questão histórica aguçava.
A Albânia foi um dos países mais fechados do mundo. O ditador Enver Hoxha que era aliado da URSS e China, rompeu com os dois países e a Albânia se fechou para todo o mundo. Foram cerca de 20 anos de total isolamento, com um governo que reprimia manifestações e vigiava a todos.
Hoxha faleceu em 1985 e, cinco anos depois, a Albânia iniciou um processo de redemocratização e abertura. Lembrando que o Muro de Berlim caiu no dia 9 de novembro de 1989.
Então, são apenas 34 anos de liberdade e volta a uma economia de mercado. Esperava encontrar um país com algumas dificuldades. E poucos turistas.
Me enganei.
Chegamos ao Aeroporto Internacional de Tirana Madre Teresa (sim, descobri que Madre Teresa de Calcutá nasceu na Albânia!) depois de um voo de 1h5 por uma companhia que nunca tinha ouvido falar (Tailwind Airlines, originalmente comprei voo para o trecho com a SunExpress). Voamos num avião velho, um Boeing 737-400). O saguão para imigração estava superlotado. Era final de julho, alta temporada na Europa, e europeus viajavam para aproveitar o Euro na Albânia, onde tudo é bem barato para eles.
Depois de algum tempo, ao chegarmos ao guichê e entregarmos nossos passaportes para nossa surpresa eles foram devolvidos sem um carimbo sequer. Caramba, estou indo para a Albânia, um ex país comunista e não tenho um carimbo de entrada no país no passaporte! Na volta ao Brasil mandei um e-mail para a Embaixada da Albânia em Brasilia perguntando sobre isso, mas não tive retorno.
Eram quase umas 2h30 quando fomos atrás da locadora para pegar nosso carro. Levamos um tempo para localizá-la na noite quente de Tirana: o responsável estava sentado numa cadeira, a locadora não tinha loja no aeroporto. O aluguel foi feito pela Rentcars e se algum dia indicarem a Exer, esqueça. O atendimento foi horrível. Pedi um GPS porque li numa matéria que Google Maps tinha problema no país e o atendente colocou o aparelho no carro e disse que tinha que voltar ao aeroporto. Ficamos perdidos até encontrar o sistema em inglês e adicionar o endereço do hotel. Foi difícil achar o hotel. Rodamos muito tempo e tivemos que apelar, na madrugada, para um motorista de táxi que, gentilmente, nos fez segui-lo até encontrar o hotel. Já eram quase 4h. No total, fizemos 867 km com o carro.
Tirana
Toda aquela impressão de que encontraríamos um país sem muitas condições foi desfeita ao entrarmos no Ebel Boutique Hotel. É, como diz o nome, um hotel boutique, com poucos quartos. São amplos, com todas as comodidades que encontramos em outros hotéis na Europa e com uma cama que “abraçava” a gente, excelente para dormir. Internet boa, chuveiro ótimo e um café da manhã simples, mas com tudo o que é necessário para fazer boa refeição.
O Ebel tem um bar que dá para a rua e serve bons drinks (o bartender chamava-se Claudio). O cardápio é muito bom. Fica aberto 24 horas, mas a cozinha fecha às 21h30.
Após o primeiro café da manhã na Albânia, duas providências super necessárias: encontrar chip para os celulares e fazer câmbio. Na Albânia a moeda é o Lek. Aliás, primeiro tivemos que fazer o câmbio para voltar à Vodafone, ao lado do hotel, e comprar os chips. Antes de viajar, entrei em contato com a Claro e consultei se fazendo roaming internacional incluiria Albânia. Disseram que sim. Mas não, não pegou na Albânia…
A primeira impressão ao andar pelas ruas próximas ao hotel (bem central) é que eu estava totalmente enganado do que iria encontrar. Logo em frente tem um shopping e o movimento nas ruas é intenso, se vê muitos jovens circulando, como também muitos carros e, para surpresa, automóveis novos. Muito Mercedes, Audi, Volvo, Skoda e Ranger Rover circulando.
Aos poucos foi dando para perceber que o país se acostumou rapidamente aos ventos do capitalismo. Em poucos anos.

Praça Skanderbeg.
Caminhamos até a Praça Skanderbeg que homenageia um herói nacional, que tem sua estátua montado num cavalo num dos extremos. São 40 mil m² de espaço livre e dá para imaginar que , ali, o regime comunista deveria fazer grandes manifestações. Integram a Praça o Palácio da Cultura e o Museu Nacional de História da Albânia.
Teleférico
Recomendo o passeio no Hop On Hop Off Tirana – Open Bus Albania, um ônibus turístico que tem duas opções: city tour com cerca de 1 hora de duração (€ 16 por pessoa) ou o que, além do City Tour, vai até o Cable Car e o Bunk’Art 1. Foi o que fizemos, a € 20 por pessoa.
No city tour passamos pela Universidade de Música e Belas Artes, o estádio de futebol, por um restaurante giratório e, a certa altura, a guia informa que estávamos entrando numa região em que, ao tempo da ditadura Enver Hoxha, era somente acessível a pessoas da elite. Era a parte onde ficavam as Embaixadas e a residência de Enver, que dominou o país de outubro de 1941 a abril de 1985, por 43 anos.
O Dajti Ekspres Cable Car é uma viagem de 15 minutos e 4,7 km para chegar a 1.613 metros acima do mar e encontrar uma bela vista de Tirana. Ali, no Parque Nacional da Montanha Dajti tem restaurante, um hotel, minigolfe e um parque de aventuras com atrações separadas para 5 a 7, 8 a 15 e acima de 16 anos. Detalhe importante: não jogue o tíquete de entrada fora ao chegar lá em cima (1 mil lekes albaneses) porque você vai precisar dele para pegar o teleférico na volta.
5 andares abaixo da terra
Na volta, a menos de 5 minutos a pé visite o impressionante e maluco Bunk’Art 1. Paranoico, Enver Hoxha delirava que a Albânia poderia ser invadida ou alvo de ataque nuclear e, por isso, mandou construir e espalhar pelo país algo que se calcula em 170 mil bunkers para proteger a população. Muito dinheiro deve ter sido gasto para “proteger” o país e não é difícil passear pela Albânia e ver essas construções.

Planta do Bunk’Art 1.
A mais megalomaníaca é o Bunk’Art 1, o maior deles e que, provavelmente, seria para abrigar quem seria próximo do poder. Construído na década de 1970, hoje é local de visitação que mostra até que ponto ditadores podem realizar seus caprichos.
São 3 mil m², cinco andares subterrâneos e 300 quartos. Tudo sem janelas. O local é de deixar boquiaberto. São corredores e mais corredores, cubículos e mais cubículos que não dá para imaginar como alguém poderia sobreviver ali por muito tempo. Tem objetos originais. O quarto que seria destinado a Enver, local para a assembleia popular se reunir, salas de aula. Uma cidade subterrânea que, tenho certeza, impacta a todos que a conhecem, por ser assustador e fazer pensar até onde a insanidade de um ser humano é capaz e o que é que podemos esperar desse mundo. O bunker é sufocante e cheira a mofo.

Quarto no Bunk’Art 1.
Aberto todos os dias das 9h30 às 18h. Entrada: 500 lekes albaneses.
Tem um outro bunker, menor, também aberto à visitação perto da Praça Skanderbeg.
Num dos dias pegamos o carro e fomos à praia de Durrës, a pouco mais de 40 km de Tirana. É um percurso curto, mas a rodovia que leva até lá, a SH2, é super movimentada. Mesmo às 9h foi difícil sair de Tirana e a volta também não foi fácil.
A praia fica no Mar Adriático e é pública, mas uma cadeira custa € 7. Era um domingo e estava lotada. A infraestrutura é boa, com vários hotéis e restaurantes à beira mar. É a cidade mais antiga da Albânia fundada por gregos em 627 a.C com o nome de Epidamno e tem cerca de 205 mil habitantes.
Fizemos aperitivos no Restorant Zanzi que fica colado à praia.
Centro de tortura
Durante o city tour, a guia apontou para uma casa e disse que ali era onde se praticavam torturas durante o período do governo comunista. Eu quis conhecer, mas Sonia e Renata preferiram me esperar num café.
A House of Leaves National Museum of Secret Surveillance (Museu da Vigilância Secreta) é outra aberração de quão longe pode chegar a maldade do ser humano. E é muito bom que o governo da Albânia tenha preservado os bunkers e essa Casa que são exemplos vivos do que se deve ser evitado a todo custo: a retirada da liberdade das pessoas.

House of Leaves.
Na fachada é uma casa normal, mas é só entrar para sentir um soco no estômago ao percorrer seus dois andares e salas. No jardim, na frente, tem uma abertura no chão que, ao descer, vai dar num corredor e você chega aonde deve ter sido uma solitária ou algo parecido. Insalubre, sem luz. Inacreditável como uma pessoa poderia passar alguns dias ali.

Um apartamento nos anos Enver Hoxha montado na House of Leaves.
Outro local que vale para reflexões.
Aberto todos os dias das 9h às 19h com ingresso a 700 lekes albaneses.

A fachada da House of Leaves.
Restaurantes
Opa Street Food – Na Rruga e Barrikadave, 682. Restaurante de rua, aberto todos os dias das 7h à meia-noite. Saladas, wraps, bowls, hamburgers e pitas.
Mon Cheri Coffee Shop – Tem várias unidades espalhadas pela cidade. É local para tomar um café e fazer um lanche.
Restaurant Piano Bar Piazza – Na Praça Muzeut Kombetar. Cardápio internacional e restaurante que faz lembrar cenários de filmes de encontros de agentes secretos.
Um passeio que não fizemos, mas deve ser muito interessante, é visitar a Venice Art Mask Factory que fica em Shkodër, 100 km ao Norte de Tirana. É nesse estúdio que se fabricam as máscaras do carnaval de Veneza
Vlorë
Cidade portuária, na costa do Mar Adriático, Vlorë tem uma avenida beira-mar, de dar inveja a muita cidade brasileira.
Foi nossa parada de uma noite a caminho de Ksamil e está a 160 km da capital do país. Estrada asfaltada, mas sem acostamento.
Outra cidade histórica, esta do século VI a.C que tem hoje em torno de 80 mil habitantes. Tem muitas praias – a cor da água é espetacular – e hotéis.
Nos hospedamos no Hotel Central que, apesar do nome, fica distante do centro e das praias. Hotel muito bom.

Pôr do sol na Lungomare.
A Lungomare, a avenida beira-mar, é uma boa dica para ficar hospedado por ter vários restaurantes e estar próxima ao mar e ter um pôr-do-sol maravilhoso. Tem vários bares e restaurantes pé de areia, um deles o Yatch Beach Bar & Pizzeria, excelente para um drink no final de tarde.
Três indicações de restaurante: El Mar Restorant & Piceri, Festo Shqipe e Sea & Sand todos com frutos do mar.

Mixed Meat Festo, com vários cortes de carne da Albânia,
Se puder, pode programar dois dias em Vlorë que oferece diversos passeios.
Ksamil
A 130 km de Vlorë, para chegar a Ksamil vai enfrentar uma rodovia com mais curvas que já dirigi. As retas, pequenas, são apenas para ligar uma curva a outra. Apesar de ser um trajeto pequeno, levamos cerca de 3 horas para chegar ao Hotel Luxury, outro hotel da Albânia que nos surpreendeu favoravelmente, com um atendimento impecável e quartos confortáveis.
E, antes de chegar à cidade, vale uma parada num ponto panorâmico ver o que te espera. Mar azul de encher os olhos.
Ksamil não chegar a ter 3 mil habitantes e para ir à praia você vai ter que escolher um beach club. Praticamente todo o Litoral só se tem acesso ao mar pelos beach clubs. Então, como a cidade é pequena, se estiver de carro vai ser difícil estacionar, mas como estamos falando de turismo, sempre vai ter um terreno vazio onde será cobrado estacionamento. No nosso caso, foi cobrado 500 lekes albaneses (R$ 30). E, no beach club, cadeira para duas pessoas com guarda-sol sai a € 30. Dica: chegue cedo para garantir um bom lugar.
O Lori Beach Bar é um desses locais que une praia reservada com restaurante e bar.
Na cidade, antes de fazer qualquer compra com cartão, pergunte para ver se ele passa. Normalmente os pagamentos são em lek albanês ou euros.
Como todo Litoral da Albânia, as águas do Mar Adriático e Jônico oferecem aos turistas águas de um azul inigualável e areias brancas. E o balneário tem uma peculiaridade: restaurantes-bares-piscinas. São espaços mistos com restaurante e bar e piscina para os frequentadores, como o Veranda By Apollonia, aberto todos os dias das 8h à meia-noite. É lugar de agito e música alta para dançar e entreter, mas o restaurante é muito bom. Tem piscina, mas é à beira-mar e do terraço dá para ver o Mar Jônico e as ilhas de Ksamil.

Pôr do sol visto do rooftop do Veranda By Apollonia.
Tanto em Vlorë quanto em Ksamil, ficamos apenas uma noite – a nossa viagem já estava chegando a quase 30 dias – e foi uma pena porque as duas cidades, com suas águas límpidas e azuis, querem segurar a gente para aproveitar.
Voltamos a Tirana para uma noite e pegar voo para Madri e tivemos uma experiência desagradável. Reservamos hospedagem no VH Eurostar Tirana Hotel, como opção para conhecer outro. Fizemos o check-in e quando fui pegar as malas para ir ao elevador informaram que os apartamentos eram em outro hotel da rede, mas do outro lado da rua, o VH Premier As Tirana Hotel. Ok, vamos lá. Mas ao chegarmos, o quarto era inabitável, tanto o nosso quanto o da Renata. Voltei à recepção (nesse hotel não tinha) e reclamei. Fizeram a troca só do nosso, para um apartamento em melhores condições. Vai a dica: em Tirana, prefira o Ebel Boutique Hotel, muito mais hotel e com melhor localização, do que os da rede Via Hotels. E mais: até o restaurante deixou a desejar e preferimos ir comer fora.
Se quer programar uma viagem diferente, pode colocar a Albânia na lista. História (para quem gosta) e praias lindas e relaxantes são o cardápio desse país que está, aos poucos, sendo descoberto, principalmente pelos europeus.
Sonia Cristina Bittencourt, jornalista, e Jean Luiz Féder, com fotos, jornalista associado a Abrajet-PR (Associação Brasileira de Jornalistas de Turismo – Paraná)






